Estudos das Obras de Agostinho de Hipona

 Na perspectiva da filosofia da rede inter-relacional 

Autor: Plinio Marcos Tsai – Professor da Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciências da Religião e professor colaborador da Pós-Graduação Stricto Sensu da Educação da Universidade Metodista de São Paulo. Professor da Associação Buddha-Dharma. 

 

Para referência ABNT (formato on‑line)

TSAI, Plínio Marcos. Estudos das Obras de Agostinho de Hipona: na da filosofia da rede inter-relacional. Plínio Marcos Tsai, São Paulo, 2026. Disponível em: https://pliniotsai.buda.org.br/a3-hegel-e-a-liberdade-na-historia-e-no-estado-uma-perspectiva-da-filosofia-da-rede-inter-relacional/. Acesso em: (indicar mês da pesquisa), (indicar ano da pesquisa).

 

Introdução 

Agostinho de Hipona (354–430) não pode ser considerado um elemento dentro de manuais de história da filosofia ou de uma pessoa importante relacionada a uma data no calendário litúrgico da tradição latina cristã. Trata-se, antes, de um elemento fundamental na constituição do que se entende por “Ocidente cristão” – uma rede cujos fluxos relacionais alcançam a teologia, a filosofia, a teoria política, a psicologia da interioridade e a própria concepção de subjetividade como lugar de inquirição da verdade. 

Para o pesquisador de pós-graduação em particular, e para o pesquisador iniciante de teologia e filosofia no geral, a operação de retorno a Agostinho não configura um exercício de arqueologia intelectual, mas um diálogo com uma das configurações fundamentais que ainda condicionam o modo como se formulam perguntas sobre o pecado, a graça, o tempo, a linguagem e a história.

Nesta introdução, o pensamento agostiniano será abordado a partir de uma perspectiva metodológica da filosofia da rede inter-relacional (Tsai, 2024, p. 151), sem, contudo, reduzir Agostinho hermenêutica contemporânea do sul global, mas utilizando seus elementos conceituais – como mútua determinação, superimposição, vacuidade e interfusão – para iluminar aspectos de sua obra que resistem a leituras meramente substancialistas, colocando de outro modo, exclusivamente eurocêntricas e ligadas ao colonialismo cultural.

  1. O contexto histórico como condição de possibilidade

Agostinho viveu um período de crise das estruturas imperiais romanas. Nascido na África, em Tagaste, na atual Argélia, em 354, recebeu formação completa em retórica e filosofia, imerso nos clássicos latinos e no platonismo, antes de aderir ao maniqueísmo por nove anos e, finalmente, converter-se ao cristianismo, sendo batizado por Ambrósio em Milão no ano de 387. Essa trajetória pessoal reflete o drama de uma elite intelectual tardo-antiga que, desiludida com as respostas oferecidas pelas religiões romanas e pelos sistemas dualistas, encontrou na fé cristã um horizonte de inteligibilidade para questões sobre a origem do mal, a natureza da verdade e a possibilidade da felicidade.

Classificar Agostinho como “filósofo medieval” seria, na terminologia da filosofia da rede inter-relacional, uma superimposição (Tsai, 2024, p. 157) – atribuir a ele uma identidade substancial reificadora indevida. Ele é, antes, um pensador da transição, moldado pelo platonismo e pelo neoplatonismo de Plotino e Porfírio, mas que opera uma inflexão fundamental ao subordinar a razão filosófica à autoridade da Escritura cristã e da tradição eclesial. Sua obra constitui uma composição entre a lógica predicativa grega (fundada na cópula “ser” e no fundamento ontológico da substância) e uma lógica relacional que emerge da interpretação bíblica – uma composição que fundou o platonismo cristão e que permaneceu como topos, ou ainda rede inter-relacional, dominante até a recepção de Aristóteles no século XIII. (Tsai, 2024, p. 152-153)

  1. O legado teológico: pecado original, graça e a formação da ortodoxia ocidental

A influência de Agostinho na doutrina cristã ocidental é comparável apenas à do apóstolo Paulo. Três domínios de sua teologia merecem destaque especial para a pesquisa em ciências da religião e em filosofia.

  1. a) Pecado original e graça:Contra a visão do monge Pelágio, que defendia a capacidade humana de buscar a perfeição moral por meio do livre-arbítrio – uma posição que, na terminologia da filosofia da rede inter-relacional (Tsai, 2024, p. 152), tenderia a uma lógica predicativa substancialista do sujeito, Agostinho desenvolveu uma teologia radical da precedência da graça. O pecado de Adão não seria um mau exemplo, mas uma condição hereditária que corrompeu a vontade humana, tornando-a incapaz de se orientar para o bem sem uma ajuda gratuita e preventiva de Deus. Essa ênfase na eficácia da graça divina moldou o debate teológico ocidental por mais de um milênio e foi um dos pontos de partida da Reforma Protestante, que viu em Agostinho um precursor de Lutero e Calvino.
  1. b) Teoria das duas cidades (De Civitate Dei):Escrita após o saque de Roma pelos godos em 410, esta obra monumental é uma apologia do cristianismo contra a acusação romana de que o abandono dos deuses ancestrais teria levado à ruína do Império. Nela, Agostinho propõe uma filosofia da história na qual a humanidade está dividida em duas cidades espirituais e interpenetradas: a Cidade de Deus, composta por aqueles que vivem segundo o amor Dei(amor a Deus), e a Cidade Terrena, formada por aqueles que vivem segundo o amor sui (amor a si mesmo). Essa distinção teve impacto duradouro na teoria política medieval, ao relativizar o poder do Estado em face da autoridade espiritual da Igreja – ainda que Agostinho jamais tenha defendido um modelo teocrático simples. Do ponto de vista da filosofia da rede inter-relacional, a relação entre as duas cidades não é de contradição substancial, mas de oposição complementar (Tsai, 2024, p. 158), pois elas coexistem e se determinam mutuamente no fluxo relacional da história.
  1. c) Trindade e interioridade:Em De Trinitate, Agostinho buscou compreender o mistério trinitário a partir de analogias com a configuração da mente humana (memória, inteligência e vontade). Essa abordagem psicológica não apenas influenciou a teologia trinitária posterior, mas também abriu caminho para uma valorização da interioridade como lugar de encontro com Deus – um movimento que, nos termos da filosofia da rede inter-relacional, pode ser lido como a retirada da superimposição de uma substância última exterior em favor da relacionalidade entre as potências da alma (Tsai, 2024, p. 157). Assim, a interioridade agostiniana não é uma substância inerentemente existente, fechada, mas uma rede de relações entre memória, entendimento e vontade – uma estrutura que dialoga, em certa medida, a noção de interfusão (yuanrong) presente na filosofia chinesa (Tsai, 2024, p. 161).
  1. O filósofo da interioridade: conhecimento, linguagem e tempo

Agostinho opera uma revolução silenciosa na concepção do ato de conhecer. Seu método, embora comprometido com a verdade da revelação bíblica, é marcado por um espírito de investigação incansável e uma abertura à dúvida que ecoa a tradição cética (ele teve uma formação também nesta escola da filosofia greco-romana do seu tempo), mas sem jamais aderir ao ceticismo.

  • Teoria do conhecimento e iluminação: Integrando o platonismo, Agostinho defende que o conhecimento das verdades eternas e imutáveis não provém dos sentidos, que captam apenas o mutável, mas de uma “iluminação” divina. Deus, como luz inteligível, torna possível à razão humana julgar e reconhecer as ideias eternas. Essa teoria diálogo tanto com a noção de a priori quanto com a profunda conexão entre fé e razão: crede ut intellegas (creio para que eu possa entender) e intellege ut credas (entendo para que possa crer) (note que há uma alteração da declinação e que foi proposital – para facilitar a leitura) são os dois polos de seu pensamento. Na linguagem da filosofia da rede inter-relacional, trata-se de uma operação que recusa a lógica predicativa que traria a noção de uma substância última no ser humano, e afirma a mútua determinação entre fé e razão (Tsai, 2024, p. 155).
  • Filosofia da linguagem e dos signos: Sua obra De Doctrina Christiana (Sobre a Doutrina Cristã) estabeleceu as bases para a semiologia ocidental, ao propor uma teoria do signo como algo que remete a algo além de si mesmo. Ele distinguiu entre signa naturalia (signos naturais) e signa data (signos convencionais, como as palavras), e sua análise da interpretação bíblica (hermenêutica pela analogia) continua sendo um marco na história da leitura e da interpretação textual. Para a filosofia da rede inter-relacional, o signo agostiniano se movimenta no registro da verdade convencional (Tsai, 2024, p. 154), pois sua função é levar para a uma verdade que não está contida nele (signo) mesmo – uma estrutura de interdependência entre significante e significado.
  • A reflexão sobre o tempo: No livro XI das Confissões, Agostinho formula uma das mais célebres e influentes análises filosóficas do tempo. Questionando a realidade objetiva do passado e do futuro (que “não são”), ele define o tempo como uma “distensão da alma” (distensio animi), composta pela memória (presente do passado), pela atenção (presente do presente) e pela expectativa (presente do futuro). Essa concepção subjetivista e psicológica do tempo influenciou profundamente a fenomenologia e o existencialismo do século XX. Em termos da filosofia da rede inter-relacional, a distensio animi é uma operação de interfusão entre os três modos temporais, que não são substâncias separadas, mas aspectos mutuamente determinantes de uma mesma realidade relacional (Tsai, 2024, p. 161).
  1. A influência constante na cultura ocidental

É difícil encontrar um pensador, após Paulo, que tenha moldado a configuração do pensamento ocidental, e mais profundamente a cultura como redes de valores do Ocidente. O impacto de Agostinho é multiforme e pode ser organizado em quatro domínios principais.

  1. Na teologia: Ele fixou o vocabulário e os problemas centrais do debate sobre a graça, a predestinação e a natureza da Igreja, influenciando tanto o catolicismo (que o reconhece como Doutor da Igreja) quanto o protestantismo (que se apropriou de sua ênfase na graça e na predestinação dela). A hermenêutica agostiniana dos Evangelhos Sinóticos já continha os elementos que mais tarde explodiriam na Reforma.
  1. Na filosofia: Sua (re)descoberta da subjetividade, sua teoria da iluminação e sua análise da memória e do tempo foram temas centrais para a filosofia medieval (Anselmo, Tomás de Aquino), para a modernidade (Descartes, Malebranche, Leibniz) e para a contemporânea (Husserl, Heidegger, Wittgenstein). A filosofia da rede inter-relacional (Tsai, 2024, p. 163) dialoga com essa tradição ao propor uma superação da antinomia entre metafísica e anti-metafísica – um debate cujas raízes podem ser rastreadas até as disputas entre Agostinho e os pelagianos sobre a natureza da substância, da relação e da causalidade.
  1. Na política e na história: A Cidade de Deus forneceu um modelo para pensar a história humana não como um ciclo repetitivo (como pensavam os antigos), mas como uma narrativa linear com um começo (Criação), um meio (Queda e Redenção) e um fim (Juízo Final), uma perspectiva sobre o tempo que se tornou dominante na civilização ocidental.
  1. Na literatura e na autobiografia: As Confissões, uma obra que parece ser a primeira autobiografia psicológica extensa da literatura ocidental, inaugurando um gênero que explora a interioridade, a memória afetiva e a formação da identidade pessoal em relação a um transcendente.
  1. Relevância para a pesquisa contemporânea

Para os estudantes de teologia e filosofia, os mestrandos e os doutorandos, Agostinho continua sendo um pensador em diálogo vivo e atual. Sua obra oferece ferramentas para pensar questões que permanecem abertas: a tensão entre determinismo e liberdade, a natureza da linguagem e da interpretação, a relação entre fé e razão, a formação da subjetividade, a ética das emoções e a própria possibilidade de uma filosofia da história.

Além disso, o trabalho de autores brasileiros contemporâneos alinhados a perspectiva do sul global, a desconstrução do colonialismo e do eurocentrismo, onde está inserida a filosofia da rede inter-relacional de Plínio Marcos Tsai (2024), uma filosofia brasileira, que busca, ao dialogar e se apropriar dos elementos da filosofia da tradição chinesa, superar as antinomias entre pensamento metafísico e anti-metafísico – um debate cujas raízes podem ser rastreadas até as disputas entre Agostinho e os pelagianos sobre a natureza da substância, da relação e da causalidade (como já mencionado anteriormente). Assim, ler Agostinho hoje não é um exercício de arqueologia intelectual. De fato, a leitura e reflexão deste pensador se torna um diálogo com uma das redes fundamentais do pensamento ocidental, cujos fluxos ressoam como sons de um eco na filosofia, na política, na teologia e na cultura até os dias atuais.

Sobre o percurso de desenvolvimento desta nossa exposição e da pesquisa sobre as Obras de Agostinho, embora a CAPES ainda não tenha emitido uma portaria específica consolidada sobre o tema até este momento, os parâmetros adotados por agências como o CNPq, em sua Portaria nº 2.664 de 6 de março de 2026, (que institui a Política de Integridade na Atividade Científica do CNPq, estabelece, em seu Art. 6º, inciso III, ser obrigatório declarar o uso de ferramentas de Inteligência Artificial Generativa (IAG) de qualquer espécie e em qualquer fase do desenvolvimento da pesquisa (concepção, redação, análise de dados, submissão), especificando nos respectivos textos e exposições eletrônicas a ferramenta utilizada e a finalidade) e o Guia sobre uso ético da Inteligência Artificial Generativa na Pesquisa da ANPOCS estabelecem princípios fundamentais aplicáveis: transparência, autoria humana, responsabilidade do pesquisador e verificação dos conteúdos gerados. 

Diante desse panorama normativo, informamos as nossas exposições contam com a colaboração da ferramenta de inteligência artificial generativa DeepSeek (modelo R1), empregada exclusivamente como suporte técnico para auxiliar na organização da estrutura textual, na sistematização de conteúdos (tabelas) e na sugestão de formulações preliminares. Todo o conteúdo gerado pela IA foi rigorosamente revisado, validado e editado pelo autor (Plínio Marcos Tsai), que assume integral responsabilidade pela precisão, coerência e adequação acadêmica do material final. O uso da IA, sabemos, não substituiu o juízo crítico, a expertise em Filosofia da Religião dentro do registro religioso do budismo chinês e da análise filosófica e tradutória do autor, tendo funcionado apenas como ferramenta auxiliar no processo de edição e formatação textual. A declaração deste uso nos parece atender aos princípios de transparência e integridade científica exigidos pelas agências de fomento à pesquisa no Brasil.

Embora a CAPES ainda não tenha emitido uma portaria específica consolidada sobre o tema até este momento, os parâmetros adotados por agências como o CNPq, em sua Portaria nº 2.664 de 6 de março de 2026, (que institui a Política de Integridade na Atividade Científica do CNPq, estabelece, em seu Art. 6º, inciso III, ser obrigatório declarar o uso de ferramentas de Inteligência Artificial Generativa (IAG) de qualquer espécie e em qualquer fase do desenvolvimento da pesquisa (concepção, redação, análise de dados, submissão), especificando nos respectivos textos e exposições eletrônicas a ferramenta utilizada e a finalidade) e o Guia sobre uso ético da Inteligência Artificial Generativa na Pesquisa da ANPOCS estabelecem princípios fundamentais aplicáveis: transparência, autoria humana, responsabilidade do pesquisador e verificação dos conteúdos gerados. Diante desse panorama normativo, informamos as nossas exposições contam com a colaboração da ferramenta de inteligência artificial generativa DeepSeek (modelo R1), empregada exclusivamente como suporte técnico para auxiliar na organização da estrutura textual, na sistematização de conteúdos (tabelas) e na sugestão de formulações preliminares. Todo o conteúdo gerado pela IA foi rigorosamente revisado, validado e editado pelo autor (Plínio Marcos Tsai), que assume integral responsabilidade pela precisão, coerência e adequação acadêmica do material final. O uso da IA não substituiu o juízo crítico, a expertise em Filosofia da Religião dentro do registro religioso do budismo chinês e da análise filosófica do autor, tendo funcionado apenas como ferramenta auxiliar no processo de edição e formatação textual. A declaração deste uso atende aos princípios de transparência e integridade científica exigidos pelas agências de fomento à pesquisa no Brasil.

Referências

AUGUSTINUS HIPPONENSIS. Quaestionum Evangeliorum libri duo. Disponível em: http://www.augustinus.it/latino/questioni_vangeli/questioni_vangeli_1_libro.htm. Acesso em: 20 abr. 2026.

TSAI, Plínio Marcos. Os elementos da rede budista-taoísta na Filosofia da Teoria de Rede Inter-relacional. Modernos & Contemporâneos, Campinas, v. 8, n. 18, p. 147-163, jan./jun. 2024.

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