Aula 6 e 7 – Soma: A Corporeidade Redimida

Soma: A Corporeidade Redimida

Autor: Plínio Marcos Tsai

Para referência ABNT (formato on‑line)

TSAI, Plínio Marcos. Soma: a corporeidade redimida. Plínio Marcos Tsai, São Paulo, 2026. Disponível em: https://pliniotsai.buda.org.br/fa6-soma-a-corporeidade-redimida/. Acesso em: (indicar – mês da sua pesquisa), (indicar – ano da sua pesquisa).

Resumo

A presente exposição se dedica à antropologia paulina e suas implicações para a Administração. Partindo da Filosofia da Rede Inter-relacional (Tsai, 2024), investigamos o conceito de soma (corpo) na obra do Apóstolo Paulo, confrontando-o com as concepções da filosofia grega. Iniciamos analisando as compreensões de corpo no platonismo (corpo como túmulo), aristotelismo (corpo como matéria da substância) e no estoicismo (corpo como parte do cosmos racional). Em seguida, apresentamos a revolução paulina: a transformação do corpo (soma) de prisão ou instrumento, para o de pessoa em relação, templo do Espírito Santo. Então, tratamos das implicações filosófico-administrativas desta concepção, criticando as perspectvas que reduzem o corpo do trabalhador a instrumento (extensão) da máquina e pensamos sobre o assédio moral na perspectiva da violência contra a corporeidade. Por fim, realizamos um estudo de caso do taylorismo, contrapondo sua antropologia instrumental à visão paulina do corpo.

Introdução

Ao longo das primeiras aulas deste curso, problematizamos a ilusão da neutralidade técnica e percorremos as diferentes concepções antropológicas que fundamentam as teorias administrativas. No nosso percurso até o momento, apresentamos a Filosofia da Teoria de Rede Inter-relacional como ferramenta hermenêutica para a compreensão da realidade organizacional (Tsai, 2024). Depois, investigamos o contexto intelectual de Paulo e seu método filosófico. Seguindo, examinamos as diferentes antropologias implícitas nas teorias administrativas. Chegamos agora ao ponto onde nos dedicaremos especificamente à antropologia paulina e suas contribuições para a compreensão do trabalho e das organizações.

O ponto de partida é um elemento frequentemente esquecido nas reflexões sobre gestão: o corpo. As teorias administrativas tradicionais tendem a tratar o corpo como um dado óbvio, um suporte físico para a atividade laboral, mas raramente como objeto de reflexão filosófica. Quando o corpo aparece, é geralmente sob a perspectiva da ergonomia (como corpo que se move, que cansa, que adoece) ou da produtividade (como corpo que produz, que executa, que opera máquinas). Raramente o corpo é considerado como elemento relacional central para a existência de todo a rede das vivências e ciências administrativas.

A Filosofia da Rede Inter-relacional (Tsai, 2024) oferece uma chave hermenêutica para superar esta redução. Como vimos anteriormente, a teoria postula que a realidade é constituída por redes de relações mutuamente determinantes, permitindo-nos compreender o corpo não como uma substância isolada (um “objeto” entre outros), mas como um elemento em fluxo relacional que se constitui pelas relações com o mundo, com os outros, com o trabalho, com o transcendente (Tsai, 2024, p. 150). O corpo não é algo que temos; é algo que somos, e é no corpo que toda a rede de relações se ancora (Tsai, 2020, p. 112).

O apóstolo Paulo, com sua concepção de soma (corpo), oferece uma contribuição importante para esta reflexão. Em suas cartas, Paulo não apenas menciona o corpo como parte da constituição humana, mas o eleva à categoria de templo do Espírito Santo (Bíblia, 2002). Esta visão, inovadora em seu contexto, tem implicações transformadoras para a forma como compreendemos a organização do trabalho ainda hoje (Tsai, 2024, p. 162).

O objetivo desta exposição, desse modo, se volta para a investigação sobre o conceito paulino de soma, situando-o em seu contexto filosófico dentro do fluxo da sua historicidade, a saber, da cultura do helenismo (platonismo, aristotelicismo, estoicismo) e, depois, analisando as suas implicações para a Administração contemporânea, na perspectiva da Filosofia da Teoria de Rede Inter-relacional (Tsai, 2020; Tsai, 2024).

O conceito de soma na Filosofia grega

Para compreender a originalidade do pensamento paulino sobre o corpo, é necessário situá-lo na rede da historicidade filosófica de seu tempo. Como mencionamos anteriormente, Paulo é um elemento inter-relacional em uma rede complexa de influências culturais, onde as concepções gregas sobre o corpo constituem elementos fundamentais dessa rede (Tsai, 2024, p. 150-152). A cultura grega, que constituiu o ambiente intelectual de Paulo, desenvolveu diferentes concepções sobre o soma, que podemos resumir em três grandes matrizes.

Platonismo e a questão corpo como túmulo (soma-sema)

A tradição platônica é marcada por uma desconfiança em relação ao corpo. No diálogo Fédon, Platão apresenta a famosa tese de que o corpo é um obstáculo para a alma em sua busca pela verdade (Platão, 2000, 66b-67a). As sensações corporais enganam, os desejos do corpo perturbam, as paixões escravizam. A morte, longe de ser um mal, é libertadora uma vez que separa a alma do corpo, permitindo-lhe contemplar finalmente as ideias eternas (Platão, 2000, 80e-81a).

A expressão mais radical desta visão é a fórmula soma-sema (σῶμασῆμα): o corpo é o túmulo da alma. Platão obviamente faz uma aproximação fonética entre as palavras gregas para “corpo” e “túmulo”, sugerindo que a encarnação é uma espécie de prisão ou exílio (Platão, 2000, 82e). A vida filosófica é, então, um exercício de purificação onde a busca é de libertar a alma das amarras do corpo, de desapegar-se das necessidades e desejos corporais para que a alma possa voar em direção à verdade (Platão, 2000, 67c-d).

Esta perspectiva, embora não seja a única que podemos encontrar na obra de Platão (há também textos que afirmam a beleza e a bondade do corpo), tornou-se extremamente influente no pensamento Ocidental. Ela alimentou correntes ascéticas e dualistas que tenderam a desvalorizar o corpo em favor da alma, a matéria em favor do espírito (UCE Editora, 2020, p. 45). Podemos dizer que Paulo conhecia esta tradição, ainda que não a compartilhasse integralmente.

Aristotelismo e o corpo como matéria da substância

Aristóteles propõe uma concepção radicalmente diferente daquele de seu mestre, Platão. Para Aristóteles, o corpo não é uma prisão da alma, mas sua matéria. A alma é a forma do corpo, e ambos constituem uma unidade substancial (Aristóteles, 2012, 412a-413a). Em sua obra Da Alma (De Anima), Aristóteles define a alma como “a primeira atualidade de um corpo natural que possui vida em potência” (Aristóteles, 2012, 412a27). O corpo, portanto, não é um acessório, é, de fato, uma parte constitutiva do que somos. Não há ser humano sem corpo. A alma não existe antes do corpo nem sobrevive a ele (ao menos não na versão mais estrita do aristotelismo). A unidade é tão interdependente que Aristóteles critica Platão exatamente por separar alma e corpo como se fossem duas substâncias independentes (Aristóteles, 2012, 407b20-25). Esta concepção tem consequências importantes: o corpo tem dignidade própria, pois é parte essencial da substância humana (alma racional). As funções corporais (nutrição, crescimento, percepção, movimento) (alma animal e alma vegetal) não são obstáculos para a vida boa ou vida feliz (a bona vita), mas dimensões que devem ser integradas harmoniosamente na vida ética (Aristóteles, 2012, 415a-416b). A virtude não consiste em fugir do corpo, mas em ordená-lo adequadamente.

Estoicismo e o corpo como parte do cosmos racional

O estoicismo, fundado por Zenão de Cítio no século III a.C., oferece uma terceira perspectiva sobre o problema do corpo. Para os estoicos, todo o cosmos é um corpo vivo, permeado pela razão universal (logos) (Engemann, 2022). O corpo humano é uma parte deste cosmos racional, e a alma é ela mesma material (um pneuma, sopro ou espírito corpóreo) (Engemann, 2022).

Nesta perspectiva, o corpo não é algo inferior ou desprezível. Ele é parte da natureza, e a natureza é boa e ordenada racionalmente (UCE Editora, 2020). A sabedoria consiste em viver em conformidade com a natureza, aceitando o que ela oferece e cultivando a virtude em todas as dimensões da vida, incluindo as corporais (Engemann, 2022).

Os estoicos desenvolveram uma ética do cuidado de si mesmo que incluía o cuidado com o corpo, mas sem jamais perder de vista que o corpo é um “indiferente” (não depende de nós) diante do qual o sábio mantém serenidade (Engemann, 2022). O corpo pode ser usado, mas não deve ser objeto de apego excessivo.

O horizonte greco-romano de Paulo

Quando Paulo escreve suas cartas, ele se move neste horizonte de concepções sobre o corpo. Havia a visão platônica do corpo como prisão; a visão aristotélica do corpo como matéria da substância; a visão estoica do corpo como parte do cosmos racional. É razoável assumir que Paulo conhecia estas concepções em função da sua vivência dentro do helenismo. O pensamento de Paulo, neste sentido, consiste em não aderir integralmente a nenhuma delas, mas em propor uma visão nova, atrelada em sua experiência de fé e em sua herança judaica.

O princípio da mútua determinação (pratityasamutpāda), central na Filosofia da Rede Inter-relacional, nos ajuda a compreender este movimento: Paulo não simplesmente adota ou rejeita as concepções gregas; ele as ressignifica a partir de sua posição na rede cultural e religiosa, produzindo uma inter-relacionalidade que não pode ser reduzida a nenhuma de suas fontes (Tsai, 2024, p. 154).

De fato, a concepção paulina foi tão transformadora que levou para uma revolução do pensamento helenístico, a partir dos elementos do cristianismo que adentraram a cultura por meio das missões e fundações de comunidades centradas nos valores de Cristo, tomados os ensinamentos de Cristo. Podemos dizer que houve uma revolução cultural fundada no pensamento de Paulo. Vejamos.

A revolução paulina o corpo (soma) como pessoa em relação

A transformação dos conceitos de Paulo para a compreensão do corpo é tão original que pode ser caracterizada como uma revolução antropológica. Ele não apenas reformula conceitos anteriores, mas cria uma nova gramática para pensar a corporeidade. Esta revolução pode ser compreendida à luz do princípio da interfusão (yuán róng), que postula a mútua determinação entre diferentes dimensões da realidade (Tsai, 2024, p. 162). Vejamos alguns elementos característicos da nova rede cultural construída por Paulo.

O Corpo é Templo (Coríntios 6,19)

O texto fundamental para compreender a visão paulina do corpo encontra-se na Primeira Carta aos Coríntios: “Acaso não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que está em vós, o qual tendes da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos?” (1Cor 6,19, Bíblia, 2002). A afirmação deve ser compreendida no contexto judaico, o templo era o lugar da presença de Deus, o espaço santo por excelência. Paulo transfere esta santidade para o corpo do crente. O corpo não é mais apenas matéria ou prisão; é o lugar da habitação divina (Schweitzer, 2013). Esta afirmação tem implicações radicais, que podem ser articuladas com os princípios da Filosofia da Rede Inter-relacional (Tsai, 2024, p. 160).

Em primeiro lugar, há a dignidade caracterizadora da inter-relacionalidade onde se o corpo é templo de Deus, sua dignidade não deriva de sua utilidade, mas de sua relação com o transcendente. O corpo é santo não porque é bonito, forte ou produtivo, mas porque Deus nele habita. Este é um contraponto direto às antropologias redutoras que analisamos na anteriormente. Em segundo lugar, a inviolabilidade religiosa, santa, pois o que é templo não pode ser profanado. A violência contra o corpo, seja física, moral ou simbólica, não é apenas uma agressão contra uma pessoa, mas uma profanação do que é santo (Bíblia, 2002, 1Cor 3,16-17). Esta noção dialoga com o princípio da vacuidade (śūnyata), que afirma a ausência de substância última e, portanto, a impossibilidade de reduzir o corpo a qualquer definição unívoca, aproximando-o da condição do transcendente (Tsai, 2024, p. 150). Em terceiro lugar, a relação cosmopolita, onde o corpo não é uma propriedade privada sobre a qual temos domínio absoluto, veja que Paulo afirmou: “não sois de vós mesmos” (1Cor 6,19). Assim, o corpo é essencialmente relacional, o corpo pertence a Deus e está ordenado à comunhão com os outros (Schweitzer, 2013), aqui está o cosmopolitismo paulino que alia o transcendente com o imanente sem deixar o mundo e sem deixar que o corpo deixe de ser igualmente o elemento central. Esta visão relacional do corpo está em perfeita consonância com a Filosofia da Rede Inter-relacional, que postula que todo ente se constitui por suas relações (Tsai, 2024, p. 150).

Oferecer o Corpo como Culto Racional (Romanos 12,1)

Outro texto fundamental é Romanos 12,1: “Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis os vossos corpos como um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional” (Rm 12,1, Bíblia, 2002). Aqui, Paulo radicaliza ainda mais sua visão. Ele utiliza a linguagem do culto sacrificial, mas a transforma completamente. Não se trata de oferecer animais mortos no altar, mas de apresentar o corpo vivo como oferta a Deus. O culto não é mais algo que se faz no templo, mas algo que se faz com o corpo em toda a existência (Schweitzer, 2013). Esta passagem contém elementos fundamentais que podem ser iluminados pela Filosofia da Rede Inter-relacional.

Primeiro, sacrifício vivo, o corpo não é oferecido morto, mas vivo, logo não é mais um sacrifício nos termos culturais do seu tempo, mas um contínuo testemunho da ação de Deus no mundo por meio do corpo. A vida corporal, com suas atividades, relações e trabalhos, é o culto agradável a Deus. Segundo, o corpo é santo, santificado, separado para Deus. Esta santidade não é uma direção de fluxo relacional onde o corpo é chamado a viver de modo conforme à sua destinação (Tsai, 2024, p. 162). Terceiro, culto racional (logikē latreia), onde a expressão grega pode significar culto espiritual em contraste com os sacrifícios materiais, mas também pode significar culto que corresponde à razão. Em ambos os casos, Paulo integra corpo e razão, mas não há oposição entre a materialidade do corpo e a espiritualidade do culto (Bultmann, 2004).

O corpo é o modo de ser-no-mundo

A grande inovação paulina é compreender o corpo (soma) não como uma parte da pessoa (ao lado da alma e do espírito), mas como o modo concreto da pessoa ser-no-mundo. O corpo é o que se é em relação, mas não que se tem (Bultmann, 2004).

O estudioso alemão Rudolf Bultmann, em sua análise da antropologia paulina, mostrou que para Paulo o corpo (soma) não é uma parte do homem, mas o homem inteiro em sua referência a si mesmo e ao mundo. É pelo corpo que o ser humano está no mundo, que se relaciona, que age, que sofre. O corpo não é a prisão da pessoa; é a sua expressão (Bultmann, 2004).

Esta compreensão pode ser iluminada pela Filosofia da Rede Inter-relacional. Se o ser humano é um nó em uma rede de relações, o corpo é o ponto de ancoragem desta rede. É no corpo que todas as relações se cruzam: as relações com o mundo (através da percepção e da ação), com os outros (através do encontro e da comunhão dentro da comunidade), com Deus (através do culto e da obediência), com o trabalho (através da produção e do serviço). Mas quais seriam as implicações para as ciências administrativas.

Implicações das ciências administrativas

A revolução paulina na compreensão do corpo tem implicações profundas para aas ciências da administração. Se o corpo não é instrumento, mas pessoa em relação, e se é templo, não mercadoria, e se é oferta viva, não recurso descartável, então toda a organização do trabalho deve ser repensada. Esta seção articula estas implicações à luz dos princípios da Filosofia da Rede Inter-relacional.

Crítica em relação a ergonomia que ignora a dignidade

A ergonomia, enquanto ciência que estuda a adaptação do trabalho ao ser humano, é uma conquista importante. Ela busca prevenir lesões, reduzir fadiga, melhorar as condições de trabalho. No entanto, uma certa abordagem ergonômica pode permanecer presa a uma visão instrumental do corpo (Gonçalves, 2019).

Quando a ergonomia se limita a perguntar “como fazer para que o corpo produza mais com menos desgaste?”, ela ainda trata o corpo como meio, não como fim. O corpo é visto como uma máquina que precisa ser otimizada, como um recurso que precisa ser preservado para continuar produzindo. Esta visão instrumental é uma forma de superimposição (samāropa), pois impõe ao corpo uma definição que não é característica da sua natureza inter-relacional (TSAI, 2024, p. 156).

A visão paulina exige que o corpo seja tratado como finalidade de vida. A pergunta não deve ser apenas “como evitar que o trabalhador adoeça?”, mas “como fazer com que o trabalho honre a dignidade do corpo?” e “como organizar o trabalho de modo que o corpo do trabalhador seja valorizado como templo, não apenas como ferramenta?”. Esta exigência está no mesmo fluxo do princípio da vacuidade (śūnyata), que afirma a ausência de substância última e, portanto, a impossibilidade de reduzir o corpo a qualquer definição unívoca (TSAI, 2024, p. 150).

O corpo do trabalhador não é instrumento

O princípio da vacuidade (śūnyata), central à Filosofia da Rede Inter-relacional, nos ajuda a compreender esta questão. O corpo, como tudo o que existe, é vacuidade de essência fixa. Ele não é nem apenas instrumento nem apenas fim em si mesmo. Ele é uma realidade relacional que se define por suas relações.

Quando uma organização trata o corpo do trabalhador como instrumento, ela exerce uma superimposição (samāropa), onde se impõe ao corpo uma definição que não lhe pertence essencialmente, reduzindo sua riqueza relacional a uma única função. O corpo que é capaz de sentir, de se relacionar, de criar, de transcender é reduzido ao corpo produtivo. Esta redução é uma forma de violência simbólica, como analisamos anteriormente.

A dignidade do corpo do trabalhador exige que ele seja reconhecido como sujeito interdependente com o corpo, não como objeto ou corpo produtivo. O trabalhador não é um recurso humano que usa seu corpo para executar tarefas; ele é uma pessoa cujo corpo expressa sua presença no mundo, sua identidade, sua relação com os outros. Esta perspectiva relacional está em perfeita relacionalidade com a antropologia paulina, que vê o corpo como templo de santidade (1Cor 6,19; Rm 12,1) (Bíblia, 2002).

Assédio moral e violência contra a corporeidade

O assédio moral no trabalho, cada vez mais reconhecido como um grave problema organizacional, pode ser compreendido à luz da antropologia paulina como violência contra a corporeidade. A Filosofia da Teoria de Rede Inter-relacional nos permite analisar este fenômeno como uma ruptura na rede de relações que constitui a pessoa (Tsai, 2024, p. 150). Quando um trabalhador é humilhado, desrespeitado, submetido a pressões excessivas, excluído ou ridicularizado, a violência não atinge apenas sua psique ou sua subjetividade. Atinge seu corpo. O corpo que treme diante da intimidação, que adoece diante do estresse, que se encolhe diante da humilhação, que se fecha diante do medo, podemos dizer que este corpo está sendo profanado (Tsai, 2020, p. 130).

Paulo afirma que o corpo é templo do Espírito Santo (1Cor 6,19). Esta afirmação é um fundamento para denunciar toda forma de violência contra o trabalhador. Se o corpo é santo, nenhuma organização tem o direito de tratá-lo como coisa. Se o corpo é templo, a profanação não é apenas uma agressão contra a pessoa, mas uma ofensa contra Deus que nela habita (Schweitzer, 2013). Esta denúncia está em consonância com o princípio da mútua determinação (pratityasamutpāda) (TSAI, 2024, p. 154), pois a violência contra o corpo desorganiza toda a rede de relações do trabalhador

Ilustrando as implicações – Taylorismo e a Antropologia do Corpo

Para ilustrar as implicações da visão paulina, analisaremos o taylorismo, um dos sistemas de organização do trabalho mais influentes da história. Este estudo de caso articula os conceitos desenvolvidos ao longo da aula com a análise crítica das práticas administrativas.

Frederick Winslow Taylor (1856-1915), engenheiro americano, desenvolveu no início do século XX um sistema de gestão científica do trabalho que se tornaria hegemônico em todo o mundo industrializado. Seus princípios fundamentais incluem a separação entre planejamento e execução (quem pensa não executa; quem executa não pensa), o estudo dos tempos e movimentos (cada gesto do trabalhador é cronometrado, analisado, padronizado), a eliminação dos vícios do trabalhador (o trabalhador tradicional deve ser treinado para executar exatamente os movimentos prescritos) e o controle rígido (supervisão constante, punições e recompensas) (Taylor, 1995).

Neste sistema, o corpo do trabalhador torna-se extensão da máquina. O operário não usa a máquina; ele é colocado como parte da máquina, executando movimentos repetitivos, padronizados, sem autonomia (Taylor, 1995). Assim, no processo de otimização produtivo com os princípios do taylorismo, o corpo é reduzido a uma função: produzir o máximo no menor tempo possível (Sennett, 2009, p. 45). Isso acaba produzindo uma contradição – o trabalhador adoece no processo de otimização, e a busca pela otimização produtiva leva para a paralisia da função ocupada pelo trabalhador.

A antropologia implícita no taylorismo é uma versão radical do dualismo cartesiano que analisamos anteriormente: a mente (gerência) pensa e comanda; o corpo (trabalhador) obedece e executa. O corpo é tratado como meio de produção, não como pessoa (Foucault, 1987). Esta é uma forma extrema de superimposição (samāropa), pois reduz o corpo a uma única determinação (Tsai, 2024, p. 156). Mas não escapa do problema paradoxal dos extremos que anunciamos acima: ao buscar o máximo, o trabalhador é pressionado, e ao ser pressionado demais ele adoece, o que leva para a realização do mínimo ou ainda nenhuma realização.

Contraponto Paulino: o corpo como finalidade de vida

A antropologia paulina oferece um contraponto radical ao taylorismo. Em primeiro lugar, há a integração entre pensamento e ação. Para Paulo, não há separação entre quem pensa e quem age. O corpo que trabalha é o mesmo corpo que oferece culto racional (Rm 12,1). O trabalho manual não é inferior ao trabalho intelectual. Ambos são expressões da mesma pessoa em relação com Deus e com os outros (Bultmann, 2004).

Em segundo lugar, a dignidade intrínseca do trabalho. Se o corpo é templo de Deus (1Cor 6,19), então o trabalho realizado por este corpo é também santo. O trabalho não adquire valor apenas por sua produtividade, mas porque é expressão da pessoa amada por Deus (Schweitzer, 2013). Esta visão está em consonância com o princípio da interfusão (yuán róng), que postula a mútua determinação entre todas as dimensões da realidade (Tsai, 2024).

Em terceiro lugar, a autonomia e responsabilidade. Paulo afirma que o corpo é templo e que o trabalhador não é senhor de si mesmo (1Cor 6,19). Isto não significa ausência de autonomia, mas sua fundamentação uma vez que a autonomia do trabalhador não é absoluta (cada um faz o que quer), mas é autonomia para responder a Deus e aos outros.

Em quarto lugar, o corpo como finalidade de vida. Na visão paulina, o corpo não é meio para a produção, mas fim em si mesmo no que tange a vida em Deus. O trabalho não existe para servir à produção, ao contrário, a produção existe para servir ao trabalho, isto é, para permitir que as pessoas realizem sua vocação de corpo vivo, templo do Espírito Santo.

A crítica contemporânea em relação ao legado do taylorismo

O taylorismo, em sua forma pura, foi superado por novas abordagens de gestão. No entanto, seu legado permanece como a fragmentação do trabalho, a separação entre planejamento e execução, a ênfase na produtividade como valor supremo, o tratamento do corpo como instrumento ainda estão presentes em muitas organizações contemporâneas (Sennett, 2009). A A Filosofia da Rede Inter-relacional nos ajuda a compreender este legado como uma reificação que rompe a rede de relações constitutiva do trabalho (Tsai, 2024).

A pandemia de COVID-19, que trouxe à tona a vulnerabilidade dos corpos dos trabalhadores, especialmente daqueles que não puderam realizar trabalho remoto, mostrou como a questão do corpo permanece central. Os trabalhadores de serviços essenciais, que continuaram expostos ao risco, experimentaram de forma aguda a tensão entre a lógica produtiva (que precisa do corpo) e a dignidade da pessoa (que não pode ser reduzida a recurso).

A visão paulina nos convida a ir além da crítica ao taylorismo. Não se trata apenas de propor melhores condições ergonômicas ou sistemas mais humanizados de gestão. Trata-se de reconhecer que o corpo do trabalhador faz parte do fluxo da santidade e que toda organização do trabalho deve estar a serviço desta santificação. Esta é uma dimensão constitutiva da corporeidade, como Paulo demonstra ao afirmar que o corpo é templo do Espírito Santo (1Cor 6,19).

Conclusão

Ao longo desta exposição, percorremos um caminho que nos levou da filosofia grega sobre o corpo à revolução paulina, e desta às implicações para as ciências administrativas. A Filosofia da Rede Inter-relacional nos permitiu compreender que o corpo não é uma substância reificada, mas uma interdependência (Tsai, 2024) que se constitui nas relações com Deus, com os outros e com o mundo. Este percurso metodológico, que já havíamos aplicado na análise do contexto paulino e das antropologias administrativas, mostra-se igualmente fecundo para a compreensão da corporeidade (Tsai, 2020).

A contribuição de Paulo é necessária para superarmos o dualismo que desvaloriza o corpo e o materialismo que o reduz à sua dimensão para o absolutamente biológico. Paulo nos oferece uma visão integral: o corpo é templo (1Cor 6,19), testemunho vivo (Rm 12,1), pessoa em relação. É pelo corpo que nos situamos no mundo, que trabalhamos, que nos relacionamos, que oferecemos culto a Deus.

Para o administrador, esta visão tem implicações práticas concretas. Não se trata de adotar uma retórica religiosa na gestão, mas de reconhecer que o corpo do trabalhador tem dignidade inter-relacional, que não pode ser reduzido a instrumento ou recurso, que merece respeito, cuidado e condições de realização. A organização que trata o corpo do trabalhador como meio está não apenas cometendo uma injustiça social, mas profanando algo santo.

O princípio da interfusão, central à Filosofia da Rede Inter-relacional, nos lembra que o corpo não é uma realidade em si mesma mantida por uma substância reificada. O corpo se interfunde com todas as demais dimensões da pessoa e da organização. Cuidar do corpo do trabalhador é cuidar de sua alma e de seu espírito; é cuidar da qualidade das relações, da cultura organizacional, do sentido do trabalho. Não há separação possível entre a corporeidade e a integralidade da pessoa.

 

Nota sobre o uso de IA generativa:

Embora a CAPES ainda não tenha emitido uma portaria específica consolidada sobre o tema até este momento, os parâmetros adotados por agências como o CNPq, em sua Portaria nº 2.664 de 6 de março de 2026, (que institui a Política de Integridade na Atividade Científica do CNPq, estabelece, em seu Art. 6º, inciso III, ser obrigatório declarar o uso de ferramentas de Inteligência Artificial Generativa (IAG) de qualquer espécie e em qualquer fase do desenvolvimento da pesquisa (concepção, redação, análise de dados, submissão), especificando nos respectivos textos e exposições eletrônicas a ferramenta utilizada e a finalidade) e o Guia sobre uso ético da Inteligência Artificial Generativa na Pesquisa da ANPOCS estabelecem princípios fundamentais aplicáveis: transparência, autoria humana, responsabilidade do pesquisador e verificação dos conteúdos gerados. Diante desse panorama normativo, informamos as nossas exposições contam com a colaboração da ferramenta de inteligência artificial generativa DeepSeek (modelo R1), empregada exclusivamente como suporte técnico para auxiliar na organização da estrutura textual, na sistematização de conteúdos (tabelas) e na sugestão de formulações preliminares. Todo o conteúdo gerado pela IA foi rigorosamente revisado, validado e editado pelo autor (Plínio Marcos Tsai), que assume integral responsabilidade pela precisão, coerência e adequação acadêmica do material final. O uso da IA não substituiu o juízo crítico, a expertise em Filosofia dentro do registro religioso do budismo chinês e da análise filosófica do autor, tendo funcionado apenas como ferramenta auxiliar no processo de edição e formatação textual. A declaração deste uso atende aos princípios de transparência e integridade científica exigidos pelas agências de fomento à pesquisa no Brasil. 

 

Referências

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