Aulas 5 e 6 – O Movimento Pentecostal e o Ecumenismo

Autor: Plinio Marcos Tsai

Vamos estudar o tema do ecumenismo e do pentecostalismo na perspectiva da missiologia interpretada no viés da hermenêutica cristã com fundamento na teologia patrística de Agostinho de Hipona.

Iniciamos revisando alguns pontos fundamentais da nossa perspectiva interpretativa, a missiologia (que também pode ser chamada de missionologia):

No Evangelho, Jesus se apresenta como aquele que foi enviado pelo Espírito Santo (Lc 4,18) para proclamar a boa-nova (Mc 1,14-15) e oferecer sua vida em resgate por muitos (Mc 10,45). Durante sua vida pública, Ele enviou seus discípulos para pregarem o Reino de Deus (Lc 9,2). Após a ressurreição, ordenou-lhes que fizessem discípulos entre todos os povos (Mt 28,19), pregassem em seu nome a todas as gentes (Lc 24,47) e proclamassem o Evangelho a toda criatura (Mc 16,15). (PEDROSA; NAVARRO; et al. 1999)

No contexto da missiologia, o texto acima nos recorda da missão de “entre todos os povos… a todas as gentes”, um tipo de missão que traz as noções de imitação de Cristo em sua atividade salvadora. A atividade salvadora na perspectiva da (1) missão para todos os povos, um dos três elementos que constituem o estudo da missiologia, sendo os dois elementos restantes, elementos que nos são contemporâneos, que são (2) a missão para os próprios cristãos (…pregassem o Reino de Deus), a missão pastoral; e (3) a missão para as estruturas sociais secularizadas (… durante a sua vida pública… proclamassem a toda a criatura), a missão sociopolítica, como a cultura, a educação, a legislação, os poderes políticos como o executivo e o judiciário, enfim, as instituições da administração publica, e assim por diante, que caracterizam, novamente, a missão política (pública).

Na perspectiva da teologia como disciplina vital da vocação do teólogo, temos a descoberta do “chamado” fundamentado na graça de Cristo. Esta graça, na perspectiva da hermenêutica agostiniana se dá, na pesquisa teológica, pela hermenêutica dos textos sagrados, com foco sempre na luz dos Evangelhos. No entanto, a graça nos leva para o método hermenêutico (de interpretação) que se fundamenta em dois fluxos (eixos): (a) doutrina sobre as coisas (a realidade), e (b) a doutrina sobre os sinais (a pessoa de Jesus nos textos, novamente, com centro nos Evangelhos). Em nossa disciplina, a missiologia, portanto, temos que estar atentos aos “sinais dos tempos”, que se apresentam nos acontecimentos factuais, em nossa realidade, e manifestam o seu significado teológico por meio da nossa interpretação dos acontecimentos sob a “a luz do Evangelho” (em nossa leitura dos Evangelhos, os sinais linguísticos que foram divinamente dispostos):

A missão de Jesus tem sua origem no Pai e se realiza sob a ação do Espírito Santo. Ele comunica essa mesma missão aos seus apóstolos ao dizer: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio” (Jo 20,21). O objetivo fundamental desse envio é a evangelização, ou seja, anunciar a boa-nova. Tanto a missão de Jesus quanto a evangelização da Igreja possuem um caráter universalista, abrangendo todos os povos (Mt 28,19) e toda a criação (Mc 16,15). (PEDROSA; NAVARRO; et al. 1999)

A graça é a ação do Espírito Santo, o anúncio do amor incondicional de Deus, capaz de transformar todas as coisas, todas as estruturas sociais, todos os elementos da política, das instituições sociais, e assim por diante, e isso se dá na pessoa de Cristo como centro e luz de todo o giro de significado que constrói e transforma a nossa realidade. Mas é preciso interpretar a Cristo nos Evangelhos, daí a validade de todas as formas de ciências de pesquisa que são produzidas pelos seres humanos, desde que dentro dos limites da responsabilidade de guardiões da natureza que nos foi dada por Deus. Para isso é preciso que nos coloquemos para fora da visão egoísta que considera o ser humano o mestre e senhor da natureza. Só Deus é mestre e senhor. Nós somos os administradores “dos talentos”.

Quando estudamos o primeiro elemento da missiologia, a (1) missão para todos os povos, devemos considerar que em todos os lugares e em todos os tempos, na perspectiva da teologia, Deus se comunicou de alguma maneira por meio da racionalidade religiosa que busca um sentido para a existência humana e para a realidade do mundo. Embora de maneira imperfeita, sob o fluxo do pecado original e suas consequências, e sob o fluxo do domínio diabólico sobre o mundo, os diversos povos e culturas, não foram abandonados pela misericórdia divina.

Na perspectiva da hermenêutica agostiniana só Deus é o objeto, a coisa, a realidade que nos é disposta para a fruição. O que significa fruição? Significa a felicidade e beleza em sua forma mais perfeita, acabada. O termo perfeito vem do latim “per factum”, o que significa uma coisa que não está mais submetida a nenhum tipo de desenvolvimento, ela é acabada e fim em si mesma. Só Deus, só a Trindade é perfeita, por isso só ela é nosso objeto de fruição, só ela é a realidade que aquieta o coração humano, só ela leva para o sentido pleno da vida humana.

Por outro lado, há também as coisas a serem utilizadas, e estas coisas são utilizadas para nos guiarem para a fruição perfeita, o Deus que é Trindade. Então, usamos das coisas que nos são apresentadas pelos nossos sentidos, pela nossa experiência de estar no mundo, tendo em vista a missão da proclamação de Cristo e do Reino de Deus, que são a manifestação experiencial, fenomenológica, da vida divina para o mundo, do bem perfeito para a felicidade de todos os povos. É nesse sentido que a hermenêutica agostiniana nos diz para interpretarmos a realidade em suas mais diversas dimensões. Todas as coisas são úteis enquanto apontam para o fim último, que é Deus em Cristo nos valores dos Evangelhos.

Sendo assim, Deus continuou a se comunicar com os seres humanos, uma vez que Deus é o fim último, o único bem a ser realmente fruído por todos os seres criados, ainda que os seres humanos estivessem sob a maldição de uma natureza decaída pelo pecado. Um dos atributos do pecado original é que abandonamos a nossa condição de guardiões e administradores dos talentos dado por Deus na criação do nosso mundo natural, e passamos a condição que só pertence a Deus, a de mestres da criação. Mas Deus continua sendo o Senhor, e por isso, as palavras de Deus que ecoam na criação do ser humano e o constituem, podem ser encontradas em todas as culturas e em todos os povos. Na perspectiva teológica cristã, elas sempre apontam na sua construção de todas as religiões em suas doutrinas mitológicas, mitopoéticas, e assim por diante, para a revelação de Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro ser humano:

Em certos ambientes, outrora fecundos de vocações missionárias, observa-se a perda da identidade do missionário e da missão ad gentes; outros insistem na vontade salvífica universal da parte de Deus, prescindindo da necessidade de conformar a vida pessoal às exigências do Evangelho, ao qual se adere na fé, permanecendo na necessidade de aderir à sua Igreja. (LATOURELLE; FISICHELLA. 2017)

E ainda:

Recentemente, desde quando, em alguns lugares, surgiu a tese de querer reduzir a ação salvífica da Igreja a um “esforço de libertação meramente sociopolítico”, os riscos foram evidentes. A libertação deve ser antes de tudo de tipo religioso: libertação da escravidão do pecado contra Deus (Rm 6,6.8,23s; 2Cor 5,17; 1Pd 1,18). (LATOURELLE; FISICHELLA. 2017)

Assim, nos excertos acima, ainda que possamos dizer que Deus quer que todos os seres humanos se salvem, a centralidade do anúncio do Evangelho nas três dimensões que compõe os três elementos da missiologia – missão de conversão, missão pastoral e missão sociopolítica – temos que lembrar: a nossa perspectiva é teológica cristã. Sendo assim, ainda que respeitemos, valorizemos e protejamos a cultura religiosa dos outros povos, anunciamos a Cristo ressuscitado e os valores do Evangelho para o desenvolvimento do Reino de Deus por meio da Igreja. Obviamente que a Igreja não é o Reino de Deus, pois o Reino é algo que vai além do sinal de unidade dos povos, que é a Igreja. No entanto, é a característica da religiosidade que está no centro do anúncio de Cristo, e não a praticidade da missão sociopolítica apenas. Deus não se encarnou em Cristo para nos dar bens materiais que passam, mas veio ao mundo para nos dar uma salvação que está centrada na conversão total do ser humano: “a conversão, isto é, o conformar a vida pessoal às exigências do Evangelho, ao ser discípulos do Senhor em sua Igreja e comprometidos com a construção de seu reino, deve ser entendida como um processo que envolve a existência inteira.” (LATOURELLE; FISICHELLA. 2017). Assim, somos levados a uma nova forma de vermos o mundo, a uma nova forma de vivermos que está de acordo com Jesus nos Evangelhos.

Falando do nosso mundo hoje, dentro do desafio do ecumenismo, que é um dom necessário, mas que não substitui a missão para os povos, a missão pastoral e a missão sociopolítica, temos um novo dom de Deus que é o pentecostalismo. Mas antes de abordamos a questão é preciso entender a diferença entre ecumenismo e dialogo inter-religioso.

A distinção entre ecumenismo e diálogo inter-religioso é essencial para a teologia e a missiologia contemporâneas. O ecumenismo refere-se ao movimento de busca da unidade entre as diferentes denominações cristãs, enquanto o diálogo inter-religioso envolve o engajamento entre cristãos e outras tradições religiosas.

O ecumenismo, conforme exposto nos documentos do Conselho Ecumênico de Igrejas (CEI, 1962, 1982), tem como objetivo restaurar a comunhão entre as diversas igrejas cristãs, promovendo cooperação teológica, social e pastoral. A partir do Concílio Vaticano II (ÉGLISE CATHOLIQUE, 1966), a Igreja Católica passou a incentivar esforços de reconciliação com as igrejas protestantes, ortodoxas e outras tradições cristãs. O ecumenismo parte da ideia de que há uma unidade fundamental entre os cristãos, mesmo diante de suas diferenças doutrinárias, sacramentais e organizacionais. Documentos como o Dicionário do Movimento Ecumênico (Dictionary of the Ecumenical Movement) (LIENHARD, 1998) ressaltam que o ecumenismo busca “a unidade visível da Igreja”, um conceito que se diferencia da mera cooperação social ou respeito mútuo.

Já o diálogo inter-religioso ocorre entre diferentes tradições religiosas, como judaísmo, islamismo, hinduísmo e budismo, com a finalidade de promover compreensão mútua, cooperação e respeito. Esse tipo de diálogo não pressupõe um objetivo de unidade doutrinal, mas sim o reconhecimento de valores compartilhados e a colaboração para o bem comum. Autores como Lacoste (2014) e Sullivan (1982) indicam que o diálogo inter-religioso se insere em um contexto mais amplo da teologia das religiões, envolvendo questões sobre salvação fora da Igreja e o papel das religiões não cristãs no plano divino.

Enquanto o ecumenismo parte da premissa da fé cristã compartilhada e busca superar divisões dentro do próprio cristianismo, o diálogo inter-religioso lida com cosmovisões e sistemas teológicos distintos. No contexto da América Latina, o ecumenismo foi fortemente influenciado pelo movimento pentecostal e carismático, como demonstrado nos estudos de Martin (1990) e na experiência da Renovação Carismática, que aproximou católicos e evangélicos (BORRIELLO; CARUANA; DEL GENIO; SUFFI, 2003). O diálogo inter-religioso, por sua vez, tem sido promovido por iniciativas como os encontros inter-religiosos organizados pelo Vaticano e por diversas organizações protestantes globais, refletindo uma crescente preocupação com a convivência pacífica entre diferentes tradições espirituais.

Portanto, o ecumenismo visa a unidade entre cristãos, enquanto o diálogo inter-religioso busca compreensão e cooperação entre diversas religiões. Ambos são fundamentais na missão da Igreja, mas operam em níveis distintos de engajamento teológico e social.

Agora do que se trata esse novo dom de Deus, o movimento do pentecostalismo que, como explicado acima, “No contexto da América Latina, o ecumenismo foi fortemente influenciado pelo movimento pentecostal e carismático…”? Vejamos:

O pentecostalismo é um movimento cristão que representa hoje um vasto fluxo de modo de vida e de interpretação de Jesus nos Evangelhos (de modo geral, se desenvolve dentro de igrejas que não são pentecostais em sua origem). O seu centro é a experiência do Cristo ressuscitado por meio dos dons carismáticos vividos de acordo com o fundamento apresentado na experiência eclesial do Pentecostes:

 

A corrente pentecostal tem sua origem no despertar religioso verificado nos Estados Unidos no séc. XIX e, especialmente, no movimento Santidade (Holiness), nascido na Igreja metodista. Tal movimento, como também outras correntes do despertar americano, pregava a necessidade de “segunda conversão”, para um “batismo no Espírito Santo”. Nos primeiros dias de 1901, no Instituto Protestante de Estudos Bíblicos de Topeka, no Kansas (EUA), um pastor protestante e seus alunos, depois de vários dias de estudo, fizeram a experiência do “batismo no Espírito Santo” e oraram em línguas. (BORRIELLO, CARUANA, DEL GENIO, SUFFI. 2003).

Assim, do excerto acima, o pentecostalismo tem suas raízes no movimento de Santidade (Holiness), que surgiu dentro da tradição Metodista nos Estados Unidos no século XIX. O que era o movimento “Holiness”, Santidade?

O movimento Santidade tinha por centro significativo a experiência da santificação como uma “segunda bênção”, sendo a primeira benção a “conversão inicial” (marcada pela fé em Cristo). A segunda benção tinha como efeito social o esforço no cultivo de uma vida cristã caracterizada pelo elemento da pureza moral. Esta pureza, se acredita, vem do poder transformador do Espírito Santo.

A partir do contexto da “segunda benção”, houve uma aderência religiosa que foi se tornando cada vez mais ampla: diversos grupos passaram a enfatizar a necessidade de uma experiência espiritual caracterizada pela interpretação de sinais, de milagres da presença de Cristo como um espírito vivo e vivificante, levando ao desenvolvimento de um conceito chave, aquele do “batismo no Espírito Santo”.

A experiência religiosa do fenômeno denominado “batismo no Espírito Santo”, passou a ser considerada essencial para a vida cristã comunitária. A característica socialmente verificável (a expressão sociorreligiosa do grupo social) pelos aderentes do movimento são as manifestações carismáticas como a glossolalia, ou seja, o falar em línguas, além de curas e outras expressões espirituais.

O pentecostalismo não surgiu de maneira descontextualizada, mas como resultado de um processo de intensificação das crenças já presentes no Metodismo e em outras tradições protestantes históricas, dando origem a um movimento que se expandiu e influenciou diversas denominações cristãs ao redor do mundo em apenas décadas. Por isso é um fenômeno sociorreligioso e, ainda mais, um fenômeno teológico central para o contexto da missiologia.

As crenças que já estavam presentes no Metodismo e que influenciaram o surgimento do movimento de Santidade (Holiness) estão ligadas à teologia de John Wesley, “fundador” do metodismo no século XVIII (TYSON, 2014; WOOD, 2010). Wesley desenvolveu uma compreensão teológica que enfatizava a santificação e a busca por uma vida cristã plenamente dedicada a Deus. Essas crenças podem ser organizadas em três principais aspectos:

(1) Justificação pela fé e regeneração: No Metodismo, assim como em outras tradições protestantes, a salvação é entendida como um dom de Deus recebido pela fé em Jesus Cristo. A justificação, nesse contexto, significa o perdão dos pecados e a reconciliação do pecador com Deus. No entanto, Wesley enfatizava que a regeneração do crente não era apenas um ato jurídico eclesial, mas um processo transformador pelo qual o Espírito Santo opera mudanças reais na vida do convertido. (TYSON, 2014; WOOD, 2010)

(2) Doutrina da Santificação (ou Santidade Cristã): Esse foi um dos pontos centrais da teologia wesleyana e, mais tarde, do movimento de Santidade. Wesley ensinava que, além da justificação, havia uma segunda experiência distinta na vida do cristão chamada inteira santificação (ou perfeição cristã). Essa experiência seria uma graça divina na qual o crente era capacitado pelo Espírito Santo a viver uma vida de amor perfeito a Deus e ao próximo, sendo purificado da inclinação ao pecado. Wesley não via isso como um estado de impecabilidade absoluta, mas como uma condição na qual o coração humano era completamente voltado para Deus. (TYSON, 2014; WOOD, 2010)

(3) Ênfase no testemunho do Espírito e na experiência religiosa: Wesley acreditava que o cristão podia ter uma experiência subjetiva e concreta do Espírito Santo, que confirmava internamente a sua salvação. Ele também encorajava uma religiosidade caracterizada por contemplações espirituais pela oração fervorosa, louvor emotivo e observações de acontecimentos imediatos como fenômenos ligados a manifestações visíveis do poder da presença de Cristo ressuscitado. (TYSON, 2014; WOOD, 2010)

Assim, ainda sobre o contexto histórico, o movimento de avivamento ocorreu na Inglaterra e nos Estados Unidos no século XVIII e XIX. O Metodismo surgiu como uma resposta ao formalismo da Igreja Anglicana e enfatizou uma espiritualidade acessível às classes populares. No século XIX, o movimento de Santidade passou a se desenvolver nos Estados Unidos dentro das igrejas Metodistas, com pregadores insistindo que os cristãos deveriam buscar essa segunda bênção da santificação como uma experiência real e uma experiência de sinal que levava para uma vida de dinâmica transformadora.

O contexto teológico Metodista foi a base social e religiosa para o surgimento do pentecostalismo, pois o movimento de Santidade, ao enfatizar a experiência do Espírito Santo, passou a sustentar publicamente que havia sinais visíveis e tangíveis da ação de Cristo pelo Espírito. Esta ação se dava por meio de sinais manifestos como curas e o dom falar em línguas estranhas sem estudo prévio. Concomitante ao dom tradicional do “falar em línguas”, houve também a instituição doutrinária do dom de “orar em línguas”, um dom possivelmente contemporâneo ao movimento, interpretado biblicamente para a sua sustentação teológica. Sobre o “orar em línguas”:

Nos primeiros dias de 1901, no Instituto Protestante de Estudos Bíblicos de Topeka, no Kansas (EUA), um pastor protestante e seus alunos, depois de vários dias de estudo, fizeram a experiência do “batismo no Espírito Santo” e oraram em línguas. Outros fizeram o mesmo, e o movimento lentamente se espalhou até 1906, quando alguns deles estavam presentes na primeira experiência de pregação do despertar pentecostal em uma velha Igreja de Los Angeles. A oração e a pregação prosseguiram, sem interrupção, por vários dias e noites; com tempo de duração de mais de três anos. Milhares de pessoas oraram em línguas, louvaram a Deus e viveram o entusiasmo, foram curadas, profetizaram, ficaram livres das influências demoníacas…O despertar de Los Angeles repercutiu nos Estados Unidos e em todo o mundo. (BORRIELLO, CARUANA, DEL GENIO, SUFFI. 2003).

O surgimento do pentecostalismo, conforme descrito nos textos acima, pode ser interpretado dentro da perspectiva da missiologia como um movimento de renovação espiritual que impactou a evangelização no sentido de missão para os povos. O “batismo no Espírito Santo” e as manifestações carismáticas que marcaram esse movimento foram percebidos como sinais de uma nova atuação divina na história da Igreja, produzindo um impacto missionário que se estendeu para diversas partes do mundo, mas o que mais nos importa agora é o impacto sobre a América Latina. A ênfase na experiência do Espírito, na oração e na evangelização transformou a forma como as igrejas se relacionavam com os três elementos da missão, gerando um dinamismo evangelístico que transcendeu barreiras culturais e institucionais, ou seja, alcançou o ecumenismo universal (também chamado de ecumenismo geral, macro ecumenismo).

Na hermenêutica agostiniana, que distingue entre a doutrina das coisas (doctrina rerum) e a doutrina dos sinais (doctrina signorum), a experiência sustentada pelo movimento do pentecostalismo pode ser analisada como um fenômeno que se mostra dentro de uma realidade espiritual específica. O batismo no Espírito Santo e os dons espirituais, como o “orar em línguas”, a profecia e as curas, podem ser compreendidos como sinais que remetem à ação divina e à presença do Espírito Santo no mundo. No pensamento de Agostinho, os sinais são elementos que indicam algo além de si mesmos, funcionando como meios pelos quais Deus comunica verdades espirituais à humanidade, mas estão centrados na interpretação das escrituras sagradas, de modo cristológico, para dar sentido aos fenômenos espirituais que ocorrem no domínio das coisas. Essa interpretação tem como sentido universalizante o bem de fruição único, que é Deus na sua Trindade. Dessa forma, as manifestações espirituais do pentecostalismo não devem ser vistas apenas como eventos isolados, mas como realidades que apontam para a renovação e o fortalecimento da missão da Igreja nos seus três elementos fundamentais.

Assim, se olharmos o movimento do pentecostalismo pela perspectiva da “doutrina das coisas” de Agostinho, veremos que a experiência do Espírito não é um fim em si mesma, mas um meio para o crescimento na fé, na santidade e na prática do amor caracterizado pelos ensinamentos de Jesus, o que atribui para estes três (fé, santidade e amor) o caráter de ser cristão. No contexto missiológico, isso implica que a experiência carismática deve conduzir a um compromisso mais profundo com a evangelização, a Justiça Social e a transformação das realidades em que as comunidades cristãs estão inseridas (ênfase na transformação vinda do terceiro elemento que caracteriza a missão, a missão sociopolítica).

O avivamento pentecostal, sem que se abandone a sua dimensão religiosa e teológica, não pode ser reduzido a um evento emocional ou a um conjunto de manifestações espirituais, mas deve ser compreendido como parte da obra missionária de Deus no mundo, chamando a Igreja para um envolvimento ativo na proclamação do Evangelho e no serviço ao próximo. Todo o movimento tende sempre para Deus que é mistério do Pai (unidade), do Filho (igualdade) e do Espírito Santo (vivência em comunidade) (AGOSTINHO; 2002; p. 46, nota de rodapé 4)

Na América Latina, o pentecostalismo se expandiu rapidamente no século XX, tornando-se um dos principais protagonistas do cenário religioso. Sua abordagem missionária, baseada na experiência direta com Deus, na evangelização dinâmica e na inserção entre as camadas populares, permitiu que ele se tornasse uma das formas mais influentes de cristianismo na região. Ao mesmo tempo, o crescimento pentecostal desafiou as tradições cristãs históricas e suscitou debates teológicos sobre a autenticidade e a função dos dons espirituais. No contexto ecumênico, as igrejas pentecostais e carismáticas frequentemente encontraram resistência por parte de denominações mais tradicionais, mas também abriram novas possibilidades de diálogo e cooperação, especialmente na luta por Justiça Social, Direitos Humanos e ações pastorais voltadas para os mais pobres:

Os primeiros pentecostais eram protestantes, em sua maioria membros das Igrejas presbiterianas, metodistas e batistas. Todavia, essas Igrejas não assimilaram o comportamento típico pentecostal: orar e cantar em línguas, libertação dos maus espíritos, profecia, grande liberdade e entusiasmo no louvor e no culto. Como consequência, os grupos pentecostais desligaram-se dessas Igrejas e formaram seitas independentes. Muitas delas reuniram-se, em 1914, para formar a Assembleia de Deus. Logo se formaram outras grandes denominações pentecostais, mas as seitas proliferaram. Grupos de pentecostais se afastaram das Igrejas pentecostais e fundaram suas seitas. As Igrejas pentecostais têm um elevado índice de crescimento, especialmente na América Latina e na África. A Renovação carismática teve início quando o movimento pentecostal começou a crescer dentro das Igrejas protestantes não-pentecostais e os grupos deixaram de se afastar da Igreja-mãe. (BORRIELLO, CARUANA, DEL GENIO, SUFFI. 2003).

Podemos apreender do texto acima que os primeiros pentecostais surgiram a partir de um contexto evangélico tradicional, mas trouxeram consigo novas ênfases espirituais que não foram facilmente assimiladas pelas igrejas históricas. Elementos como o “orar em línguas”, a profecia e uma liturgia mais espontânea e entusiástica geraram tensões que levaram à separação e à formação de novas denominações. Esse fenômeno pode ser interpretado à luz da missiologia como um movimento de renovação e adaptação da fé cristã às necessidades espirituais e socioculturais dos grupos que aderiram ao pentecostalismo.

Tomando como ponto de partida a hermenêutica agostiniana, podemos dizer que o “orar em línguas”, a profecia e a libertação espiritual, não seriam o objetivo final do pentecostalismo, mas meios pelos quais os fiéis experimentam a presença de Deus, da Trindade, e reafirmam seu compromisso com a missão cristã, que é o anúncio de Jesus Cristo ressuscitado. Na perspectiva da “doutrina das coisas”, isso nos lembra que o crescimento pentecostal e sua ênfase na experiência espiritual devem estar sempre vinculados ao objetivo maior da missão da Igreja: a proclamação do Evangelho e a transformação da realidade social e espiritual das pessoas. Se os sinais carismáticos forem compreendidos apenas como manifestações isoladas, corre-se o risco de perder o verdadeiro propósito da missão, que é conduzir as pessoas à vida plena em Cristo. O pentecostalismo, quando visto sob essa perspectiva agostiniana, não pode ser reduzido a um fenômeno emocional (ou mesmo sectário), mas deve ser compreendido dentro de um projeto maior de evangelização e renovação da fé cristã.

Na América Latina, o crescimento do pentecostalismo se deu de forma exponencial, tornando-se uma das expressões mais significativas do cristianismo no continente. Sua rápida expansão deve-se, em grande parte, à sua capacidade de adaptação aos contextos locais e ao seu apelo direto às classes populares. O pentecostalismo enfatiza a experiência individual com Deus, a autoridade das Escrituras e uma forte dimensão comunitária, o que o tornou uma alternativa acessível e envolvente para milhões de fiéis. No contexto ecumênico, a presença pentecostal tem gerado desafios e oportunidades. Por um lado, houve tensões iniciais entre as igrejas pentecostais e as denominações cristãs tradicionais, especialmente no que diz respeito à teologia dos dons espirituais e à eclesiologia. (MARTIN;1993)

Por outro, o pentecostalismo também contribuiu para o diálogo interconfessional, principalmente por meio da Renovação Carismática Católica, que surgiu como uma resposta à expansão pentecostal dentro da Igreja Católica. A Renovação Carismática Católica pode ser vista como um ponto de convergência entre o pentecostalismo e a tradição eclesial mais ampla, demonstrando que as experiências carismáticas não precisam necessariamente levar a rupturas institucionais. Pelo contrário, podem ser incorporadas dentro de uma tradição mais ampla de espiritualidade cristã. Essa realidade reforça a ideia de que o pentecostalismo não é apenas um fenômeno isolado, mas parte de um movimento mais amplo de renovação espiritual que transcende barreiras denominacionais. (CANTALAMESSA; 1984. SULLIVAN; 1982)

As três ondas pentecostais representam diferentes fases de expansão do pentecostalismo dentro do cristianismo global, sendo marcadas por distintas teologias, práticas e reações das igrejas estabelecidas. A recepção dessas ondas variou entre rejeição, adaptação e incorporação parcial de seus elementos:

  1. A primeira onda corresponde ao pentecostalismo clássico, que emergiu no início do século XX, com destaque para o avivamento da Rua Azusa (1906) e a experiência em Topeka (1901). Esse movimento foi caracterizado pela ênfase no batismo no Espírito Santo, acompanhado pelo falar em línguas (glossolalia), o “orar em línguas”, as profecias e curas divinas. As igrejas protestantes históricas, como presbiterianos, metodistas e batistas, não assimilaram essas novas práticas litúrgicas e espirituais, o que levou à formação de igrejas pentecostais independentes, como a Assembleia de Deus. Como destacado por Martin (1990), o pentecostalismo clássico cresceu rapidamente na América Latina, encontrando uma forte ressonância entre as classes populares. No entanto, esse crescimento inicial ocorreu à margem das tradições protestantes estabelecidas, gerando tensões entre os adeptos da nova espiritualidade e as igrejas tradicionais (BORRIELLO; CARUANA; DEL GENIO; SUFFI, 2003).

  1. A segunda onda, surgida na década de 1960, ficou conhecida como o movimento da Renovação Carismática. Diferentemente do pentecostalismo clássico, essa renovação não resultou na criação de novas denominações, mas na introdução de elementos carismáticos dentro de igrejas históricas e, posteriormente, na Igreja Católica. O estudo de Sullivan (1982) aponta que a Renovação Carismática se espalhou rapidamente entre anglicanos, luteranos e católicos, enfatizando a experiência pessoal com o Espírito Santo sem a necessidade de ruptura institucional. No contexto católico, o Concílio Vaticano II abriu espaço para essa experiência dentro da estrutura eclesial, sem romper com a doutrina tradicional (ÉGLISE CATHOLIQUE, 1966). Apesar da aceitação parcial, essa onda gerou resistências dentro do protestantismo reformado, uma vez que desafiava a ênfase tradicional na centralidade da Palavra e na soberania divina sobre os dons espirituais (LATOURELLE; FISICHELLA, 2017).

  1. A terceira onda, iniciada nos anos 1980, corresponde ao movimento neopentecostal, caracterizado por uma abordagem pragmática da fé cristã, forte ênfase em batalha espiritual e na teologia da prosperidade. De acordo com Cantalamessa (1984), essa fase não exige necessariamente a glossolalia como evidência do batismo no Espírito, mas mantém a ênfase em curas e milagres como sinais da ação divina. As igrejas neopentecostais cresceram de maneira explosiva na América Latina e na África, promovendo novas formas de evangelização, muitas vezes baseadas em meios de comunicação de massa e modelos empresariais de gestão eclesiástica (MARTIN, 1990). Essa nova onda encontrou forte rejeição entre os setores protestantes tradicionais, que criticaram a mercantilização da fé e a ênfase na prosperidade material em detrimento de uma espiritualidade fundamentada na doutrina reformada (MEHL, 1964).

No contexto missiológico, essas três ondas refletem diferentes estratégias de evangelização e adaptação às mudanças culturais e sociais. A hermenêutica teológica aplicada ao fenômeno mostra como cada fase respondeu a demandas espirituais e contextuais específicas, reafirmando o papel da missão cristã na expansão do Evangelho. Como aponta Lienhard (1998), a evangelização pentecostal, apesar de suas diferenças internas, representa um desafio para as igrejas históricas, pois evidencia a busca por uma experiência espiritual mais dinâmica e vivencial. Além disso, o pentecostalismo influenciou o ecumenismo na América Latina, promovendo interações entre católicos carismáticos e evangélicos pentecostais, o que pode ser observado na literatura conciliar e no movimento de Lausanne para a evangelização mundial (COMITÊ DE LAUSANNE, 1974; 1989).

Dessa forma, as três ondas pentecostais ilustram a capacidade do cristianismo de se reinventar, responder às necessidades espirituais emergentes e interagir com diferentes tradições teológicas. A aceitação e a rejeição dessas ondas demonstram como a tradição e a inovação dialogam na construção da experiência cristã global. Por outro lado, o desenvolvimento do pentecostalismo e da Renovação Carismática pode ser entendido dentro da lógica missiológica como um sinal da contínua obra do Espírito Santo na história da Igreja. Aplicando a hermenêutica agostiniana, reconhecemos que as manifestações carismáticas funcionam como sinais que apontam para a graça divina, enquanto a missão da Igreja continua sendo a evangelização e a transformação do mundo.

No contexto latino-americano, esse fenômeno desafia todas as tradições cristãs a refletirem sobre novas formas de proclamar a fé e dialogar com as diferentes expressões do cristianismo contemporâneo. Assim, o relato do despertar pentecostal de Los Angeles deve ser entendido não apenas como um evento histórico, mas como um marco dentro da missão cristã, refletindo a atuação do Espírito Santo na renovação da Igreja e na expansão do Evangelho.

A hermenêutica agostiniana nos ajuda a discernir a profundidade desse movimento, reconhecendo nos sinais carismáticos não apenas fenômenos extraordinários, mas instrumentos da missão de Deus para alcançar e transformar o mundo. Portanto, o pentecostalismo herdou do Metodismo a ênfase na experiência direta com Deus e ampliou sua dimensão carismática, resultando em um movimento global que marcou o cristianismo contemporâneo como uma das suas características fundamentais.

Bibliografia Básica

AGOSTINHO, Santo. A doutrina cristã: manual de exegese e formação cristã. Tradução do original latino cotejada com versões em francês e espanhol por Nair de Assis Oliveira. São Paulo: Paulus, 2002.

AGOSTINHO, Santo. O Sermão da Montanha e Escritos sobre a fé. São Paulo: Paulus, 2017. (Coleção Patrística).

BORRIELLO, L.; CARUANA, E.; DEL GENIO, M. R.; SUFFI, N. (dir.). Dicionário de mística. São Paulo: Paulus; Edições Loyola, 2003.

CANTALEMESSA, Raniero. Rinnovarsi nello Spirito. Roma: Edizioni Paoline, 1984.

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