Aula 9 - Oikonomia: Gestão Doméstica e Gestão Empresarial

Módulo II – Antropologia Paulina: As Estruturas da Pessoa

Aula 9 – Oikonomia: Gestão Doméstica e Gestão Empresarial

Disciplina: Filosofia e Ciências Administrativas
Curso: Graduação em Ciências Administrativas (Administração / Comércio Exterior)
Professor: Dr. Plínio Marcos Tsai

Para citar a referência do texto: 

TSAI, Plínio Marcos. Módulo II – Antropologia Paulina: As Estruturas da Pessoa. Aula 9 – Oikonomia: Gestão Doméstica e Gestão Empresarial, 2026. Disponível em: https://pliniotsai.buda.org.br/. Acesso em: (escreva: dia-mês-ano do acesso ao texto).

Resumo

Esta aula investiga o conceito grego de oikonomia (gestão da casa) e sua recepção na obra do Apóstolo Paulo, à luz da Filosofia da Rede Inter-relacional (TSAI, 2024). Partindo da análise de Xenofonte e especialmente de Aristóteles, distinguimos a oikonomia como administração do necessário para a vida e a reprodução da comunidade doméstica, em contraste com a chrematistike (arte de acumular riqueza por si mesma). A tradição chinesa é incorporada através do Confucionismo, que concebe a gestão da casa (qi jia) como etapa fundamental para o governo do Estado (zhi guo) e a pacificação do mundo (ping tian xia). Em seguida, examinamos como Paulo ressignifica o termo oikonomia para descrever a ação divina na história (Efésios 1,10) e a função do administrador cristão como despenseiro dos mistérios de Deus (1Coríntios 4,1). A coleta para os pobres em Jerusalém (2Coríntios 8–9) é analisada como uma economia da igualdade que realiza na prática a lógica relacional da mútua determinação. Aplicando os princípios da vacuidade, da superimposição e da interfusão, demonstramos que a crítica paulina à acumulação desmedida dialoga profundamente com a crítica aristotélica à crematística. Por fim, extraímos implicações para as ciências administrativas contemporâneas, com especial atenção à crítica de Alberto Guerreiro Ramos à importação acrítica de modelos estrangeiros e à necessidade de uma gestão contextualizada e substantiva.

  1. Introdução: A Casa Esquecida nas Ciências Administrativas

Nas aulas anteriores do Módulo II, investigamos a antropologia paulina em suas dimensões fundamentais: o corpo (soma) como templo do Espírito Santo e sacrifício vivo (Aula 4); a organização como corpo de Cristo (Soma Christou), onde todos os membros são mutuamente dependentes (Aula 5). Agora, voltamo-nos para uma categoria central tanto na filosofia grega quanto no pensamento paulino: a oikonomia (οἰκονομία).

O termo oikonomia é a raiz etimológica da nossa palavra “economia” – e, por extensão, de toda a reflexão sobre a gestão dos recursos, das finanças, das organizações. No entanto, o sentido original do termo é mais amplo e mais profundo do que suas reduções modernas. Oikonomia significa literalmente “administração da casa” (oikos = casa; nomos = lei, administração). A casa, para os gregos, não era uma unidade produtiva e relacional que incluía a família, os escravos, os bens, os animais, a terra e as ferramentas. Administrar a casa era, pois, administrar uma rede de relações entre pessoas e coisas, com o objetivo de produzir o necessário para a vida e para a reprodução da comunidade doméstica.

A Filosofia da Rede Inter-relacional (TSAI, 2024) oferece uma perspectiva hermenêutica para recuperar este sentido original. Como veremos, a oikonomia grega e a oikonomia paulina são ambas expressões de uma lógica relacional que se opõe radicalmente à lógica da acumulação desmedida (chrematistike). Compreender esta oposição é fundamental para as ciências administrativas contemporâneas, que frequentemente operam com uma concepção redutora de “economia” como mera maximização do lucro e do valor.

O objetivo desta aula é, portanto: (1) reconstruir o conceito grego de oikonomia a partir de Xenofonte e de Aristóteles, distinguindo-o da chrematistike, e incorporar a perspectiva confucionista sobre a relação entre família, Estado e gestão; (2) analisar como Paulo ressignifica este conceito para descrever a ação divina na história e a função do administrador cristão; (3) extrair implicações filosófico-administrativas para a compreensão da empresa, do papel do gestor e dos indicadores de sucesso organizacional, com especial atenção à crítica de Alberto Guerreiro Ramos à importação acrítica de modelos administrativos.

  1. O conceito grego de oikonomia

2.1 A casa como unidade produtiva e relacional

Na Grécia antiga, o oikos (οἶκος) era a unidade básica da organização social e econômica. Ao contrário da nossa noção moderna de “casa” como mero local de residência, o oikos era uma comunidade produtiva que incluía:

  • Os membros da família (pai, mãe, filhos)
  • Os escravos (considerados parte do oikos, ainda que em posição subalterna)
  • Os bens móveis e imóveis (terras, gado, ferramentas)
  • Os estoques de alimentos, matérias-primas e produtos manufaturados

oikos era também uma unidade relacional. As relações entre seus membros não eram meramente contratuais ou funcionais; eram relações de autoridade, de cuidado, de dependência mútua, de reciprocidade. O pai de família (oikodespotes) não era apenas um “gestor” no sentido moderno; era também um guardião, um provedor, um juiz, um sacerdote doméstico.

Aplicando o princípio da mútua determinação (pratītyasamutpāda), podemos dizer que o oikos era um nó na rede relacional da pólis (a cidade). O oikos existia em relação com outros oikoi, e a pólis era, em última instância, uma rede de oikoi articulados por laços de parentesco, vizinhança, aliança e comércio (TSAI, 2024, p. 154). Como afirma a teoria da rede inter-relacional, “algo só existe a partir de não-algo, de outro algo. E esse outro algo só existe porque existe o algo inicial” (TSAI, 2024, p. 154). O oikos só existe como parte de uma rede de oikoi, e a pólis só existe como articulação destes oikoi.

2.2 Xenofonte, Aristóteles e a arte de administrar

Dois autores gregos clássicos nos legaram reflexões fundamentais sobre a oikonomia. Xenofonte (c. 430-354 a.C.), em sua obra Econômico (Oeconomicus), apresenta um diálogo entre Sócrates e o rico proprietário rural Isômaco sobre a arte de administrar uma casa. Para Xenofonte, a oikonomia é a ciência de enriquecer a própria casa (XENOFONTE, Econômico, I, 1). No entanto, enriquecer não significa acumular por acumular, mas sim produzir o suficiente para viver bem, com ordem, justiça e harmonia. Isômaco ensina que a boa administração começa pela ordem: cada coisa em seu lugar, cada pessoa em sua função. A esposa é apresentada como “a guardiã dos bens” e o marido como “o provedor”. Ambos cooperam para o bem comum do oikos.

Xenofonte já antecipa um princípio que a Filosofia da Rede Inter-relacional chama de oposição complementar (yin-yang) (TSAI, 2024, p. 158). O homem e a mulher, o provedor e o guardião, não são opostos que se excluem, mas polos complementares que se determinam mutuamente. A boa oikonomia é aquela que integra estas diferenças em uma unidade superior – o oikos bem administrado.

Aristóteles (384-322 a.C.), em sua Política, oferece a análise mais sistemática da oikonomia. No Livro I da Política, Aristóteles sistematiza que a família (oikos) e a pólis constituem duas formas naturais de associação humana (ARISTÓTELES, Política, 1256a). Ele distingue três partes da administração doméstica: (1) o governo dos escravos (despotike), (2) o governo dos filhos e da esposa (politike), e (3) a arte de adquirir bens (chrematistike). No entanto, é a distinção entre oikonomia propriamente dita e chrematistike que se tornou mais influente na tradição filosófica.

Para Aristóteles, a oikonomia é natural e limitada. Ela visa produzir o necessário para a vida e para a boa existência (eu zēn). Ela inclui a agricultura, a pecuária, a caça, a pesca – atividades que retiram da natureza o que ela pode dar sem ser explorada. A oikonomia é, pois, uma arte a serviço da vida e da comunidade. Ela tem um fim intrínseco (o bem viver) e, por isso, é limitada por este fim: quando se tem o suficiente, para-se de acumular.

chrematistike (χρηματιστική), ao contrário, é a arte de adquirir riqueza por si mesma. Ela é artificial e ilimitada. Seu paradigma é o comércio, especialmente o comércio monetário, onde o dinheiro é usado para gerar mais dinheiro. Aristóteles critica esta atividade porque ela inverte a relação natural entre meio e fim: a riqueza, que deveria ser meio para o bem viver, torna-se fim em si mesma. O resultado é uma espiral infinita de desejos insaciáveis – exatamente o que a Filosofia da Rede Inter-relacional, com seu princípio da vacuidade (śūnyata), identifica como uma forma de superimposição (samāropa): atribuir à riqueza uma substancialidade que ela não possui (TSAI, 2024, p. 150-156).

2.3 Oikos vs. Polis: Esfera Privada e Pública

Uma última distinção aristotélica é fundamental: a diferença entre a esfera do oikos (privada) e a esfera da polis (pública). O oikos é o domínio da necessidade, da reprodução, das relações assimétricas (senhor-escravo, marido-mulher, pai-filhos). A polis é o domínio da liberdade, da deliberação, das relações simétricas entre cidadãos iguais.

No entanto, esta separação não é absoluta. Como observa a Filosofia da Rede Inter-relacional, “a transformação ocorre na complementariedade intrínseca à interdependência” (TSAI, 2024, p. 155). O oikos e a polis não são mundos separados, mas polos complementares de uma mesma rede relacional. Um bom cidadão é aquele que primeiro sabe administrar sua casa; um bom administrador da casa é aquele que tem virtudes que também serão úteis na pólis. A oikonomia é, assim, uma escola de cidadania.

  1. A contribuição do confucionismo: da família ao Estado

3.1 A família como modelo de governo

A tradição confucionista oferece uma perspectiva complementar e extremamente rica sobre a relação entre gestão da casa e governo do Estado. No Confucionismo clássico, a família não é apenas uma unidade afetiva e produtiva, mas o modelo paradigmático para toda forma de organização social e política. O conceito de “família-Estado” (家國,ㄐㄧㄚ ㄍㄨㄛ) expressa esta continuidade fundamental, pois os mesmos princípios que regem uma boa família – respeito hierárquico (孝,ㄒㄧㄠ), reciprocidade e cuidado mútuo – devem igualmente reger o bom governo do reino.

Os ensinamentos confucianos, conforme apresentados no Grande Aprendizado (大學, ㄉㄚˋ ㄒㄩㄝ) e nos Analectos (論語, ㄌㄨㄣˋ ㄩˇ), partem do princípio de que a ordem social é construída de dentro para fora. O itinerário formativo do “sábio governador” (聖 ㄕㄥ) percorre estágios sucessivos: primeiramente o cultivo pessoal (修身 ㄒㄧㄡ ㄕㄣ), em seguida a harmonização da família (齊家ㄑㄧˊ ㄐㄧㄚ), depois o governo do Estado (治國 ㄓˋ ㄍㄨㄛ) e, por fim, a pacificação do mundo (平天下 ㄆㄧㄥˊ ㄊㄧㄢ ㄒㄧㄚˋ).

 

3.2 A Economia como Ética Relacional

Diferentemente da tradição ocidental, que tende a separar a economia (gestão dos recursos) da política (gestão do poder) e da ética (gestão dos valores), o Confucionismo as integra em uma visão holística e relacional da administração. A riqueza não é vista como um fim em si mesma (como na chrematistike), mas como um meio para a realização de fins mais elevados: a harmonia familiar, a estabilidade social, o bem comum.

O princípio da mútua determinação (pratītyasamutpāda), central à Filosofia da Rede Inter-relacional, encontra no Confucionismo uma expressão atual. A harmonia da família (齊家 ㄑㄧˊ ㄐㄧㄚ) só é possível se cada membro cultiva suas virtudes pessoais (修身 ㄒㄧㄡ ㄕㄣ]). Mas, inversamente, o cultivo pessoal só se realiza efetivamente no contexto das relações familiares. Não há isolamento, nem autossuficiência, pois há apenas relações circulares de mútua determinação entre o indivíduo, a família, o Estado e o mundo. O bom governo não se impõe de cima para baixo, mas emerge da qualidade das relações em todos os níveis da rede social.

3.3 Virtude como Fundamento da Gestão

Para Confúcio, a gestão autêntica não pode ser reduzida a técnicas ou procedimentos. Ela depende fundamentalmente da virtude do governante (ou do gestor). “Governar pela virtude”, ensina Confúcio, “é como a estrela polar que permanece em seu lugar enquanto todas as outras estrelas a orbitam” (Analectos 2.1). O bom governante não precisa impor sua vontade pela força; ele atrai os outros pela excelência de seu caráter.

Este princípio dialoga profundamente com o conceito paulino de fidelidade (pistis) como virtude fundamental do oikonomos (administrador). Tanto para Confúcio quanto para Paulo, a autoridade não deriva da posição, mas da confiança que o administrador inspira. E esta confiança, por sua vez, só pode ser conquistada pela coerência entre o que se diz e o que se faz, entre os valores que se proclama e as práticas que se adota.

  1. Paulo e a oikonomia de Deus

4.1 1Coríntios 4,1 – administradores dos mistérios de deus

Paulo utiliza o termo oikonomos (οἰκονόμος) – administrador, despenseiro, mordomo – para definir a função dos apóstolos e, por extensão, de todos os líderes na comunidade cristã:

“Que os homens nos considerem como ministros de Cristo e administradores (oikonomos) dos mistérios de Deus. Ora, além disso, o que se requer dos administradores é que cada um seja encontrado fiel” (1Cor 4,1-2, BÍBLIA, 2002).

Aqui, Paulo opera uma ressignificação do termo oikonomos. Na tradição grega, o oikonomos era o escravo encarregado de administrar os bens do senhor. Ele não era proprietário, mas gestor. Sua virtude principal era a fidelidade (pistis) – administrar bem o que lhe foi confiado. Paulo aplica esta imagem ao líder cristão: ele não é dono da mensagem, nem dono da comunidade; é apenas administrador de um dom que recebeu. Sua função não é acumular poder ou prestígio, mas servir e distribuir fielmente os “mistérios de Deus”.

Aplicando o princípio da interfusão (yuán róng) , podemos dizer que o oikonomos paulino não é uma substância isolada (um “gestor” com propriedades fixas), mas um nó relacional na rede da comunidade (TSAI, 2024, p. 162). Ele existe na relação com Deus (de quem recebe o encargo), com a comunidade (a quem serve), com a mensagem (que administra), com os outros ministros (com quem coopera). Não há oikonomos sem esta rede de relações que o constitui.

4.2 Efésios 1,10 – A economia da plenitude

A Carta aos Efésios (provavelmente deutero-paulina, mas fiel ao espírito paulino) utiliza o termo oikonomia de maneira ainda mais grandiosa:

“Desvendando-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito que ele propusera em si mesmo, para a economia da plenitude dos tempos (oikonomia tou plērōmatos tōn kairōn), de fazer convergir em Cristo todas as coisas, as que estão nos céus e as que estão na terra” (Ef 1,9-10, BÍBLIA, 2002).

A expressão oikonomia tou plērōmatos é central. Plērōma significa “plenitude”, “complemento”, “totalidade”. A oikonomia de Deus não é uma administração qualquer; é uma economia da plenitude, que visa “fazer convergir em Cristo todas as coisas”. A metáfora grega do oikos (casa) é expandida para abarcar todo o cosmos. Deus é o oikodespotes (senhor da casa), e sua oikonomia é o plano de reunir todos os membros dispersos da casa em um só corpo, sob uma só cabeça.

Esta visão está em consonância com a imagem da rede de joias do Avatamsaka Sutra, onde cada joia reflete todas as outras e todas se reúnem em uma única rede luminosa (TSAI, 2024, p. 150; COOK, 1977). A oikonomia divina é a realização desta interfusão universal: todas as coisas convergem em Cristo, e Cristo é a cabeça do corpo que reúne todas as coisas.

Do ponto de vista das ciências administrativas, esta visão implica que a gestão autêntica não é fragmentadora (separando pessoas, recursos, fins), mas integral: visa a unidade na diversidade, a convergência de todas as dimensões da atividade humana em direção a um bem comum que as transcende.

4.3 2Coríntios 8–9: A coleta como economia da igualdade

O texto mais concreto sobre oikonomia na obra paulina encontra-se nos capítulos 8 e 9 da Segunda Carta aos Coríntios, onde Paulo organiza uma coleta para os pobres de Jerusalém. A passagem merece ser citada em seus elementos centrais:

“Não se trata de que os outros tenham alívio, enquanto vós ficais sobrecarregados; mas sim de que haja igualdade. Nesta ocasião, a vossa abundância supre a falta daqueles, para que também a abundância daqueles venha a suprir a vossa falta, e assim haja igualdade, como está escrito: ‘Aquele que colheu muito não teve demais, e aquele que colheu pouco não teve falta'” (2Cor 8,13-15, BÍBLIA, 2002, citando Êxodo 16,18).

Paulo descreve aqui uma economia da igualdade (isotēs) fundada na reciprocidade e na partilha. Não se trata de caridade paternalista (os ricos ajudando os pobres), mas de complementaridade mútua: a abundância de uns supre a falta de outros, e vice-versa, criando um ciclo virtuoso de dádiva e recepção.

Aplicando o princípio da mútua determinação (pratītyasamutpāda), podemos dizer que Paulo está operando com uma lógica relacional da economia. Na lógica predicativa (substancialista), o rico é rico por si mesmo, o pobre é pobre por si mesmo; a ajuda é uma transferência de uma substância (riqueza) de um sujeito para outro. Na lógica relacional de Paulo, rico e pobre são polos complementares que se constituem mutuamente. A riqueza só é riqueza porque existe pobreza; a pobreza só é pobreza porque existe riqueza. A oikonomia da igualdade não elimina a diferença, mas a integra em uma rede de mútua determinação (TSAI, 2024, p. 154; FERRARO, 2016, p. 26).

Além disso, Paulo estabelece que a contribuição deve ser “voluntária” (2Cor 9,7), “conforme as posses” (2Cor 8,11), e “bem-aventurada” (2Cor 9,7). Não se trata de um imposto compulsório, mas de uma economia do dom – uma oikonomia fundada na liberdade, na gratuidade e na responsabilidade. Esta é a antítese tanto da acumulação crematística (que visa o lucro ilimitado) quanto da economia estatal centralizada (que impõe de cima para baixo).

 

  1. Oikonomia vs. Chrematistike: a crítica paulina à acumulação

5.1 Aristóteles: economia é administração do necessário; crematística é a arte de acumular por acumular

Como vimos na seção 2.2, Aristóteles estabelece uma distinção fundamental entre:

  • Oikonomia (administração doméstica): natural, limitada, voltada para a produção do necessário para a vida e para o bem viver.
  • Chrematistike (arte de adquirir riqueza): artificial, ilimitada, voltada para a acumulação de dinheiro por si mesma.

A crítica aristotélica à chrematistike é ontológica: ela inverte a relação natural entre meio e fim. O dinheiro foi inventado como meio de troca para facilitar a aquisição do necessário. Mas na chrematistike, o dinheiro torna-se fim em si mesmo; a troca monetária descola-se da satisfação das necessidades reais e torna-se um jogo abstrato de multiplicação de números. Aristóteles antecipa aqui a crítica moderna à financeirização da economia.

A Filosofia da Rede Inter-relacional ilumina esta crítica pelo princípio da superimposição/atribuição (samāropa). A chrematistike impõe ao dinheiro uma natureza que ele não possui: atribui-lhe uma substância última (o valor intrínseco, a capacidade de gerar mais dinheiro infinitamente) que não lhe pertence. O dinheiro é vazio de substância (vacuidade), mas a lógica crematística o reifica, transformando-o em um ídolo (TSAI, 2024, p. 150-156).

5.2 Paulo herda esta crítica?

Paulo não cita Aristóteles diretamente, mas seu pensamento está em profunda sintonia com a crítica aristotélica à acumulação. Vários textos paulinos expressam uma desconfiança radical em relação à riqueza e ao desejo de acumular:

“A raiz de todos os males é o amor ao dinheiro” (1Tm 6,10, BÍBLIA, 2002).

“Os que querem ser ricos caem em tentação e em laço, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas” (1Tm 6,9, BÍBLIA, 2002).

Mais importante do que as citações isoladas é a lógica relacional que subjaz à prática paulina da partilha. Para Paulo, a riqueza não é um bem em si; é um meio para a comunhão e para a igualdade. A coleta para Jerusalém (2Cor 8–9) é a prova de que Paulo não é um filosofo epicurista que rejeita a riqueza como má em si mesma. Ele a aceita como dom de Deus, mas orienta-a para o bem comum. O que ele rejeita é a superimposição que transforma a riqueza em ídolo.

O princípio da vacuidade (śūnyata) é aqui necessário: “a vacuidade é a relacionalidade absoluta, a ausência completa de quaisquer substâncias últimas” (TSAI, 2024, p. 150). A riqueza não tem substância última; ela só existe como relação. Fora da relação de dom e de serviço, a riqueza é vazia – não realiza nada, não salva ninguém, não produz bem algum.

Assim, embora não haja evidência de que Paulo tenha lido a Política de Aristóteles, há uma convergência relacional entre os dois pensadores. Como afirma a Filosofia da Rede Inter-relacional, Platão e Paulo são como joias diferentes na mesma rede, refletindo, cada um a seu modo, a mesma intuição fundamental (cf. TSAI, 2024, p. 162). O mesmo se aplica a Aristóteles e Paulo: ambos estão na mesma rede cultural (o Mediterrâneo helenístico), e ambos refletem a intuição de que a acumulação desmedida é uma distorção da verdadeira natureza da economia.

  1. Implicações para a filosofia das ciências administrativas

6.1 A empresa é casa ou é máquina de lucro?

A primeira implicação é ontológica: a empresa (a organização produtiva) deve ser compreendida como oikos (casa) ou como máquina de lucro? A resposta paulina, iluminada pela Filosofia da Rede Inter-relacional e pela tradição confucionista, é clara: como oikos.

Uma empresa que se compreende como oikos:

  • Reconhece que é uma comunidade de pessoas (não apenas uma coleção de funções ou recursos).
  • Tem como fim o bem comum de seus membros (não apenas a maximização do lucro para os acionistas).
  • Opera com uma lógica relacional, onde as partes (funcionários, clientes, fornecedores, comunidade) são membros interdependentes de um só corpo.
  • Recusa a superimposição crematística que reduz todos os valores a preços e todas as relações a contratos.

Uma empresa que se compreende como máquina de lucro, ao contrário:

  • Opera com uma lógica substancialista (predicativa): cada um tem uma função fixa, e o todo é a soma das partes.
  • Tem como fim ilimitado (lucro sempre maior) – exatamente a crítica aristotélica à chrematistike.
  • Trata as pessoas como recursos (meios), não como fins em si mesmas.
  • Exercita violência simbólica ao impor aos membros uma superimposição redutora.

6.2 O gestor como oikonomos ou como chrematistes?

A segunda implicação diz respeito ao papel do gestor. Paulo nos oferece o modelo do oikonomos (administrador fiel), em contraste com o chrematistes (acumulador). A tradição confucionista, por sua vez, oferece o modelo do “sábio governador” – aquele que governa pela virtude, não pela força ou pela acumulação.

O gestor como oikonomos / sábio governador:

  • Não é proprietário, mas despenseiro. Administra bens que não lhe pertencem (os da organização, os da sociedade, os da natureza).
  • Sua virtude principal é a fidelidade (pistis) e a virtude pessoal  ( ㄉㄜˊ): ser coerente, confiável, inspirador.
  • É relacional: não age sozinho, mas em rede com outros gestores, com os trabalhadores, com a comunidade.
  • Tem como critério o bem comum e a igualdade (isotēs), não a maximização do lucro ou do valor para o acionista.

O gestor como chrematistes, ao contrário:

  • Age como se fosse proprietário (ou representante exclusivo dos proprietários).
  • Sua virtude é a eficiência (maximizar resultados com mínimos recursos), qualquer que seja o custo humano ou ambiental.
  • É individualista (o “herói” gestor, o CEO carismático, o “salvador” da empresa).
  • Tem como critério o lucro e o crescimento (quantitativos), não o bem viver (qualitativo).

6.3 Contexto Brasileiro: Alberto Guerreiro Ramos e a Crítica à Transplante de Modelos

No contexto brasileiro, o pensamento de Alberto Guerreiro Ramos (1915-1982) é fundamental para compreender os riscos da importação acrítica de modelos administrativos estrangeiros. Guerreiro Ramos foi um dos mais importantes sociólogos brasileiros, autor de obras como A Redução Sociológica (1958) e A Nova Ciência das Organizações (1981). Sua crítica central é que os países periféricos, como o Brasil, não podem se dar ao luxo de importar teorias administrativas desenvolvidas em contextos sociais, econômicos e culturais completamente diferentes.

Guerreiro Ramos denunciava o que chamava de “transplante de ideias” – a adoção acrítica de modelos de gestão estrangeiros (especialmente norte-americanos) sem a devida adaptação à realidade brasileira. Este fenômeno, para ele, era uma forma de alienação e dependência intelectual, que impedia o desenvolvimento de uma ciência administrativa autêntica e contextualizada.

Aplicando os princípios da Filosofia da Rede Inter-relacional, podemos dizer que o “transplante de ideias” é uma forma de superimposição (samāropa): impõe-se a uma realidade (a brasileira) categorias e modelos que não lhe pertencem, atribuindo-lhe propriedades que ela não tem. O resultado é uma gestão inautêntica, que não resolve os problemas concretos da população e que aprofunda as desigualdades sociais.

Guerreiro Ramos propunha, como alternativa, a redução sociológica – um método de análise que buscava compreender os fenômenos sociais a partir de seu contexto histórico e cultural específico, em vez de aplicar modelos universais. Esta proposta dialoga com o princípio da vacuidade (śūnyata) e da mútua determinação (pratītyasamutpāda): não há modelos universais (substâncias últimas) aplicáveis a qualquer contexto; a gestão eficaz é sempre situada, relacional, adaptada às condições concretas de cada tempo e lugar.

6.4 Indicadores de gestão e bem comum

A terceira implicação diz respeito aos indicadores de desempenho organizacional. Se a empresa é oikos e não máquina de lucro; se o gestor é oikonomos e não chrematistes; então os indicadores tradicionais (lucro, ROI, market share, valor para o acionista) são insuficientes e podem ser enganosos.

Paulo nos oferece dois critérios alternativos:

  • A igualdade (isotēs): “Não se trata de que os outros tenham alívio, enquanto vós ficais sobrecarregados; mas sim de que haja igualdade” (2Cor 8,13). Um bom indicador de gestão é a distribuição justa dos encargos e dos benefícios dentro da organização. Não basta que a empresa seja lucrativa; é preciso que o lucro seja compartilhado de maneira equânime entre todos os que contribuíram para era-lo.
  • A suficiência (autarkeia): Paulo afirma que ele aprendeu “a viver contente em toda e qualquer situação” (Fp 4,11). A autarkeia (autossuficiência, suficiência) é o contrário da espiral crematística de desejos infinitos. Uma empresa bem administrada não precisa crescer indefinidamente; ela precisa gerar o suficiente para que todos os seus membros vivam com dignidade – não com luxo, não com escassez, mas com o necessário para uma vida boa.

Aplicando o princípio das duas verdades (satyadvaya), podemos distinguir entre a verdade convencional dos indicadores quantitativos (lucro, produtividade, eficiência) e a verdade última do bem comum, da igualdade, da suficiência, da dignidade (TSAI, 2024, p. 153-154). Os indicadores convencionais são úteis e necessários no nível fenomênico, mas não devem ser reificados (transformados em fins em si mesmos). A verdade última da gestão é relacional: não está nos números, mas na qualidade das relações que a organização estabelece consigo mesma, com seus membros, com a sociedade, com a natureza, com Deus.

  1. Conclusão: para uma oikonomia relacional e contextualizada

Ao longo desta aula, percorremos um caminho que nos levou da oikonomia grega (Xenofonte, Aristóteles) à oikonomia paulina (1Cor 4,1; Ef 1,10; 2Cor 8-9), passando pela crítica aristotélica à chrematistike e chegando às implicações para as ciências administrativas contemporâneas. Incorporamos a perspectiva confucionista da relação entre família, Estado e gestão, e a crítica de Alberto Guerreiro Ramos à importação acrítica de modelos administrativos. A Filosofia da Rede Inter-relacional iluminou cada passo deste percurso, mostrando que a lógica relacional – com seus princípios de vacuidade, mútua determinação, superimposição, duas verdades, fluxo relacional, não-ação, oposição complementar e interfusão – é o fio condutor que une estas tradições aparentemente distantes.

oikonomia é, em sua essência, uma arte da relação – a arte de administrar a casa (que é sempre uma rede de relações) de modo a produzir o necessário para a vida e para o bem comum. A chrematistike é a negação desta arte: a transformação da relação em instrumento, da casa em máquina, do necessário em supérfluo, do bem comum em lucro privado.

Para as ciências administrativas, esta distinção não é uma questão de preferência subjetiva ou de opção ideológica. É uma questão ontológica. A empresa é oikos (casa) ou é máquina? O gestor é oikonomos ou chrematistes? Os indicadores medem o bem comum ou apenas o lucro? As respostas a estas perguntas determinam se a organização estará em sintonia com a rede relacional que a constitui – ou se estará rompendo os fios desta rede, produzindo alienação, sofrimento e destruição.

A Filosofia da Rede Inter-relacional nos lembra que “as perspectivas entre os dois registros de tradição não são mais antinômicas e incomunicáveis” (TSAI, 2024, p. 162). A oikonomia grega e a oikonomia paulina podem dialogar entre si; a crítica aristotélica e a crítica paulina à acumulação podem convergir; a sabedoria oriental da vacuidade e a sabedoria ocidental da administração podem se interfundir; a crítica de Guerreiro Ramos à transplante de modelos ilumina o caminho para uma gestão autêntica e contextualizada. O resultado é uma visão integral da gestão – uma visão que coloca a pessoa no centro, a relação como fundamento, o serviço como princípio, o bem comum como horizonte, e Deus como fonte e fim de toda a oikonomia.

Referências

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TSAI, Plínio Marcos. Os elementos da rede budista-taoísta na Filosofia da Rede Inter-relacional. Modernos & Contemporâneos: Revista de Filosofia do IFCH da Universidade Estadual de Campinas, Campinas, v. 8, n. 18, p. 147-165, jan./jun. 2024.

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