A2 – Estudo sobre a obra Questões dos Evangelhos

Estudo sobre a obra Questões dos Evangelhos Na perspectiva da filosofia da rede inter-relacional Autor: Plinio Marcos Tsai (Tsai, 2024) – Professor da Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciências da Religião e professor colaborador da Pós-Graduação Stricto Sensu da Educação da Universidade Metodista de São Paulo. Professor da Associação Buddha-Dharma.   Para referência – ABNT (formato on‑line) TSAI, Plínio Marcos. Estudo sobre a obra Questões dos Evangelhos: na perspectiva da filosofia da rede inter-relacional. Plínio Marcos Tsai, São Paulo, 2026. Disponível em: https://pliniotsai.buda.org.br/a2-estudo-sobre-a-obra-questoes-dos-evangelhos/. Acesso em: (indicar mês da pesquisa) e (indicar ano da pesquisa).   Introdução histórica às Quaestionum Evangeliorum de Agostinho (Agostinho, 2025) No período em que Agostinho produziu as Quaestionum Evangeliorum, o Norte da África vivia uma complexa confluência entre a romanização e as tradições locais. A África era uma região economicamente vital para o Império, sendo considerada o “maior celeiro de Roma”, com a produção de trigo que alimentava a Urbe e suas vastas necessidades. Essa prosperidade convivia com uma rede de religiões, um mosaico de diversidades culturais religiosas, diferentes classes sociais e identidades culturais. As cidades, como Hipona (atual Annaba, na Argélia), onde Agostinho era bispo, exibiam a imponência dos monumentos romanos, e abrigavam aldeias com costumes ancestrais e línguas pré-latinas. A Igreja na África, por sua vez, estava dividida. Desde o início do século IV, o cisma donatista (Wikipédia, 2025a) separava o cristianismo norte-africano, gerando um cenário de disputas teológicas e institucionais que perdurava há décadas. O conflito, que opunha a facção católica à donatista – esta última reivindicando uma pureza eclesiástica inquestionável e a invalidade dos sacramentos administrados por traditores (aqueles que entregaram as Escrituras durante as perseguições) e que tinham um comportamento público imaculado -, criava um ambiente de constante polêmica. Nesse contexto, o trabalho exegético não era uma atividade contemplativa, mas uma ferramenta que tinha como função a definição da ortodoxia e a consolidação da autoridade episcopal. Agostinho bispo: a maturidade intelectual e as responsabilidades pastorais (c. 395-400) Ordenado sacerdote em 391 e tendo recebido o sacramento da ordem de bispo, atuando como coadjutor de Hipona em 395, Agostinho (Wikipédia, 2025b) assumiu, por volta de 396, o bispado pleno, dando início à fase mais produtiva e influente de seu ministério. O período entre 395 e 400 marca a transição de Agostinho do recém-convertido ao grande doutor da Igreja latina, um intelectual que já havia amadurecido suas primeiras grandes sínteses teológicas e estava no auge de sua capacidade argumentativa. Foi neste período que ele escreveu algumas de suas obras mais fundamentais: a Confissões (c. 397-401) e, ao mesmo tempo, dedicava-se a comentários sistemáticos das Escrituras. A efervescência intelectual que caracteriza este período explica sua dedicação a projetos exegéticos de fôlego, como o De sermone Domini in monte e o De consensu evangelistarum (c. 400), que visava harmonizar as narrativas dos quatro evangelhos. As Quaestionum Evangeliorum (c. 397-400) (Agostinho, 2025) situam-se, portanto, neste mesmo horizonte de trabalho: o bispo de Hipona, empenhado em formar seus clérigos e fiéis, buscava oferecer ferramentas para uma leitura espiritualmente e doutrinalmente segura dos textos sagrados. Gênese e natureza das Quaestionum Evangeliorum A obra, composta de dois livros (um sobre o Evangelho de Mateus, outro sobre o de Lucas), tem uma gênese peculiar que revela muito sobre o método de Agostinho. O autor nos informa, no prólogo, que o texto nasceu de respostas ditadas a um consulente com quem lia os Evangelhos. Essa origem dialógica é confirmada pela pesquisa histórica, que aponta para a existência de uma edição anterior, feita sem o conhecimento de Agostinho, a partir de cartas onde ele respondia a questões sobre os dois evangelhos. A versão final, que chegou até nós, é uma segunda edição revisada e ampliada pelo próprio bispo, organizada em dois livros com títulos e numeração, possivelmente para facilitar a consulta. Essa origem ex auditu (a partir da escuta e do diálogo vivo) é fundamental para compreender o estilo da obra. Cada questão (quaestio) irrompe de uma dificuldade concreta de ordem lógica, histórica ou teológica que o texto evangélico apresenta em sua literalidade. Agostinho não configura uma ordem sistemática ou cronológica, mas parece atender às demandas do interlocutor. Essa metodologia, aparentemente despretensiosa, revela, na verdade, uma forma específica de racionalidade teológica – a lógica do problema, que resiste a configuração de um sistema fechado, e prefere a interlocução viva, se alinhando a uma aproximação da oralidade cristã. As questões sociais e políticas no horizonte da obra Embora as Quaestionum Evangeliorum (Agostinho, 2025) seja uma obra voltada predominantemente para o esclarecimento de passagens bíblicas, ela não está imune às grandes questões que agitavam a África romana no final do século IV. A principal delas era o já mencionado cisma donatista (Wikipédia, 2025a). Agostinho (Wikipédia, 2025b), empenhado em defender a unidade da Igreja e a validade dos sacramentos independentemente da santidade pessoal do ministro, dedicou inúmeros sermões, cartas e tratados à controvérsia. O trabalho exegético sobre os Evangelhos, portanto, não poderia ser neutro – a interpretação de passagens sobre a pureza, o pecado, a comunidade e o perdão tinha impactos diretos na polêmica anti-donatista.  Além disso, o próprio cenário imperial oferecia uma rede cultural instável. O século IV foi marcado por uma crise política e econômica, com a crescente pressão dos povos estrangeiros (chamados de “bárbaros”, uma nomenclatura problemática que vai gerar questões ligadas ao racismo e a escravização dos povos) nas fronteiras e a percepção generalizada da decadência romana. Agostinho, como bispo de uma província rica e cobiçada, estava atento a essas tensões. Embora a grande reflexão sobre a queda de Roma e a distinção entre a Cidade de Deus e a cidade terrena só viesse a amadurecer plenamente após o saque de Roma em 410, levando à composição da monumental obra literária De Civitate Dei, os anos de 397-400 já testemunhavam uma Igreja cada vez mais integrada à configuração imperial, desde o Édito de Tessalônica (380), que tornou o cristianismo a religião oficial do Império.  Nesse sentido, as Quaestionum Evangeliorum (Agostinho, 2025) são um testemunho da atuação de Agostinho como pastor e

A1 – Estudos das Obras de Agostinho de Hipona Na perspectiva da filosofia da rede inter-relacional 

Estudos das Obras de Agostinho de Hipona  Na perspectiva da filosofia da rede inter-relacional  Autor: Plinio Marcos Tsai – Professor da Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciências da Religião e professor colaborador da Pós-Graduação Stricto Sensu da Educação da Universidade Metodista de São Paulo. Professor da Associação Buddha-Dharma.    Para referência ABNT (formato on‑line) TSAI, Plínio Marcos. Estudos das Obras de Agostinho de Hipona: na da filosofia da rede inter-relacional. Plínio Marcos Tsai, São Paulo, 2026. Disponível em: https://pliniotsai.buda.org.br/a3-hegel-e-a-liberdade-na-historia-e-no-estado-uma-perspectiva-da-filosofia-da-rede-inter-relacional/. Acesso em: (indicar mês da pesquisa), (indicar ano da pesquisa).   Introdução  Agostinho de Hipona (354–430) não pode ser considerado um elemento dentro de manuais de história da filosofia ou de uma pessoa importante relacionada a uma data no calendário litúrgico da tradição latina cristã. Trata-se, antes, de um elemento fundamental na constituição do que se entende por “Ocidente cristão” – uma rede cujos fluxos relacionais alcançam a teologia, a filosofia, a teoria política, a psicologia da interioridade e a própria concepção de subjetividade como lugar de inquirição da verdade.  Para o pesquisador de pós-graduação em particular, e para o pesquisador iniciante de teologia e filosofia no geral, a operação de retorno a Agostinho não configura um exercício de arqueologia intelectual, mas um diálogo com uma das configurações fundamentais que ainda condicionam o modo como se formulam perguntas sobre o pecado, a graça, o tempo, a linguagem e a história. Nesta introdução, o pensamento agostiniano será abordado a partir de uma perspectiva metodológica da filosofia da rede inter-relacional (Tsai, 2024, p. 151), sem, contudo, reduzir Agostinho hermenêutica contemporânea do sul global, mas utilizando seus elementos conceituais – como mútua determinação, superimposição, vacuidade e interfusão – para iluminar aspectos de sua obra que resistem a leituras meramente substancialistas, colocando de outro modo, exclusivamente eurocêntricas e ligadas ao colonialismo cultural. O contexto histórico como condição de possibilidade Agostinho viveu um período de crise das estruturas imperiais romanas. Nascido na África, em Tagaste, na atual Argélia, em 354, recebeu formação completa em retórica e filosofia, imerso nos clássicos latinos e no platonismo, antes de aderir ao maniqueísmo por nove anos e, finalmente, converter-se ao cristianismo, sendo batizado por Ambrósio em Milão no ano de 387. Essa trajetória pessoal reflete o drama de uma elite intelectual tardo-antiga que, desiludida com as respostas oferecidas pelas religiões romanas e pelos sistemas dualistas, encontrou na fé cristã um horizonte de inteligibilidade para questões sobre a origem do mal, a natureza da verdade e a possibilidade da felicidade. Classificar Agostinho como “filósofo medieval” seria, na terminologia da filosofia da rede inter-relacional, uma superimposição (Tsai, 2024, p. 157) – atribuir a ele uma identidade substancial reificadora indevida. Ele é, antes, um pensador da transição, moldado pelo platonismo e pelo neoplatonismo de Plotino e Porfírio, mas que opera uma inflexão fundamental ao subordinar a razão filosófica à autoridade da Escritura cristã e da tradição eclesial. Sua obra constitui uma composição entre a lógica predicativa grega (fundada na cópula “ser” e no fundamento ontológico da substância) e uma lógica relacional que emerge da interpretação bíblica – uma composição que fundou o platonismo cristão e que permaneceu como topos, ou ainda rede inter-relacional, dominante até a recepção de Aristóteles no século XIII. (Tsai, 2024, p. 152-153) O legado teológico: pecado original, graça e a formação da ortodoxia ocidental A influência de Agostinho na doutrina cristã ocidental é comparável apenas à do apóstolo Paulo. Três domínios de sua teologia merecem destaque especial para a pesquisa em ciências da religião e em filosofia. a) Pecado original e graça:Contra a visão do monge Pelágio, que defendia a capacidade humana de buscar a perfeição moral por meio do livre-arbítrio – uma posição que, na terminologia da filosofia da rede inter-relacional (Tsai, 2024, p. 152), tenderia a uma lógica predicativa substancialista do sujeito, Agostinho desenvolveu uma teologia radical da precedência da graça. O pecado de Adão não seria um mau exemplo, mas uma condição hereditária que corrompeu a vontade humana, tornando-a incapaz de se orientar para o bem sem uma ajuda gratuita e preventiva de Deus. Essa ênfase na eficácia da graça divina moldou o debate teológico ocidental por mais de um milênio e foi um dos pontos de partida da Reforma Protestante, que viu em Agostinho um precursor de Lutero e Calvino. b) Teoria das duas cidades (De Civitate Dei):Escrita após o saque de Roma pelos godos em 410, esta obra monumental é uma apologia do cristianismo contra a acusação romana de que o abandono dos deuses ancestrais teria levado à ruína do Império. Nela, Agostinho propõe uma filosofia da história na qual a humanidade está dividida em duas cidades espirituais e interpenetradas: a Cidade de Deus, composta por aqueles que vivem segundo o amor Dei(amor a Deus), e a Cidade Terrena, formada por aqueles que vivem segundo o amor sui (amor a si mesmo). Essa distinção teve impacto duradouro na teoria política medieval, ao relativizar o poder do Estado em face da autoridade espiritual da Igreja – ainda que Agostinho jamais tenha defendido um modelo teocrático simples. Do ponto de vista da filosofia da rede inter-relacional, a relação entre as duas cidades não é de contradição substancial, mas de oposição complementar (Tsai, 2024, p. 158), pois elas coexistem e se determinam mutuamente no fluxo relacional da história. c) Trindade e interioridade:Em De Trinitate, Agostinho buscou compreender o mistério trinitário a partir de analogias com a configuração da mente humana (memória, inteligência e vontade). Essa abordagem psicológica não apenas influenciou a teologia trinitária posterior, mas também abriu caminho para uma valorização da interioridade como lugar de encontro com Deus – um movimento que, nos termos da filosofia da rede inter-relacional, pode ser lido como a retirada da superimposição de uma substância última exterior em favor da relacionalidade entre as potências da alma (Tsai, 2024, p. 157). Assim, a interioridade agostiniana não é uma substância inerentemente existente, fechada, mas uma rede de relações entre memória, entendimento e vontade – uma estrutura que dialoga, em certa medida, a noção de interfusão (yuanrong) presente na filosofia chinesa (Tsai, 2024, p. 161). O filósofo da interioridade: conhecimento, linguagem e tempo Agostinho opera uma revolução silenciosa na concepção do ato de conhecer. Seu método, embora comprometido com a verdade da revelação bíblica, é marcado por um espírito de

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