Tradução do Prólogo pela Equivalência Formal

Autor: Plinio Marcos Tsai – Professor da Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciências da Religião e professor colaborador da Pós-Graduação Stricto Sensu da Educação da Universidade Metodista de São Paulo. Professor da Associação Buddha-Dharma.  Introdução O prólogo das Questões dos Evangelhos (Quaestionum Evangeliorum) de Agostinho pode ser tomado como objeto de uma hermenêutica orientada pelos princípios da filosofia da rede inter-relacional (Tsai, 2024, p. 151). Nesta perspectiva, o texto agostiniano não é tratado como um sistema metafísico fechado, mas como um conjunto de enunciados cuja organização – ou aparente desorganização – revela uma lógica relacional (Tsai, 2024, p. 152) oposta à lógica predicativa fundada na cópula “ser” (S é P) e no fundamento ontológico da substância metafísica (Tsai, 2024, p. 153).  A análise do prólogo será feita de modo exaustivo, vamos analisar todas as passagens deste texto inicial de modo a construir um panorama interessante sobre a perspectiva hermenêutica que se desenvolveu o texto Questões do Evangelho de Agostinho. Não incluímos o latim como texto original em função do objetivo, seguindo as diretrizes da CAPES de divulgação e popularização do conhecimento científico. Assim, o latim do texto original poderia aparecer como uma erudição desnecessária ao objetivo da popularização do conhecimento científico. O método usado para a tradução dos textos em latim foi o da equivalência formal.  1. Primeira passagem: ausência de exposição em ordem e mútua determinação Agostinho inicia o prólogo com a seguinte afirmação: “Esta obra não foi escrita como se tivesse sido empreendida por nós a exposição do Evangelho em ordem, mas conforme a vontade e o tempo do consulente com quem se lia, se algo lhe parecia obscuro.” Nesta passagem, Agostinho nega que seu trabalho corresponda a uma exposição ordenada segundo um princípio metafísico de sucessão causal (ou lógica). Em vez disso, ele introduz dois operadores relacionais: a “vontade” e o “tempo” do consulente. Do ponto de vista da filosofia da rede inter-relacional, isso traz o princípio da mútua determinação (pratītyasamutpāda), segundo o qual “nada existe por si mesmo; tudo surge em correlação dependente” (Tsai, 2024, p. 155). Pela aplicação deste princípio, temos que as noções presentes no texto não devem ser assumidos como uma substância última independente (svabhāva); sua existência e sua forma são co-determinadas pela pergunta do consulente (aquele que conversa com Agostinho, que se trata de uma pessoa histórica real, mas que pode ser considerada na analogia com o estudioso da nossa atualidade, de certo modo) e pela circunstância temporal.  Agostinho opera, assim, no registro da verdade convencional (saṃvṛti-satya / satyadvaya), onde “a relacionalidade relativa diz respeito ao domínio das relações enquanto coisas que existem e podem ser percebidas pelos sentidos e organizadas conceitualmente” (Tsai, 2024, p. 154). A exposição “em ordem” do Evangelho apresenta, na verdade, uma questão não passou desapercebida pelos pesquisadores, a questão da oralidade (Carneiro, 2016), ou seja, por uma ordem pragmática, dependente da ocasião e dos problemas localizados na historicidade de cada comunidade (Mateus, Marcos, Lucas e João e suas respectivas comunidades nas quais se desenvolveram os textos dos evangelhos). Isso se alinha também a oralidade como constituição fundamental dos Evangelhos (Carneiro, 2016).   2. Segunda passagem: omissão e superimposição evitada Agostinho acrescenta: “Por isso muitas coisas e talvez mais obscuras foram omitidas, porque já as conhecia aquele que inquiria as coisas que ainda não conhecia, e não queria que sua pressa fosse retida naquelas coisas que já havia recebido antes de tal modo que, pela assiduidade de ouvir e tratar, as confiasse estável e firmemente à memória.” Aqui, a omissão de passagens consideras como “mais obscuras” não é uma falha lógica, mas um ato de reconhecimento de que o consulente já possuía, pela “assiduidade de ouvir e tratar”, uma estabilidade pelo conhecimento intelectivo que dispensava repetição. Do ponto de vista da teoria, Agostinho evita uma superimposição (samāropa), que consiste em “atribuir um estatuto de substância última ao indivíduo” ou, por extensão, ao texto (Tsai, 2024, p. 157). Se ele repetisse o já conhecido, estaria atribuindo ao texto uma completude ontológica que ele não necessita ter. Além disso, a expressão “não queria que sua pressa fosse retida” remete ao princípio da não-ação do fluir livre (wuwei yaodu) : “o critério de verificação da mudança bem-sucedida é a não-ação caracterizada pelo fluir livre do que é útil” (Tsai, 2024, p. 158). Agostinho não retém a pressa do consulente com conteúdos já assimilados; ele deixa o fluxo do aprendizado seguir seu curso, sem forçar uma repetição que poderia se tornar uma noção substancialista do conteúdo dos textos evangélicos. 3. Terceira passagem: desordem temporal e vacuidade da ordem Agostinho descreve a gênese material do texto: “Algumas coisas também aqui não se encontram expostas na mesma ordem em que foram narradas no Evangelho, porque certas questões, adiadas pela pressa, quando se dava tempo, eram retomadas e escreviam-se naquele lugar que, na ordem das coisas já expostas, vinha (como que um) vazio em seguida.” A ordem final não corresponde à ordem do Evangelho, nem a uma cadeia causal linear. A noção de “lugar vazio” que aguarda o preenchimento posterior é particularmente significativa. Na filosofia da rede inter-relacional, isso se conecta ao princípio da vacuidade (śūnyatā), definida como “a relacionalidade absoluta, a ausência completa de quaisquer substâncias últimas e de qualquer característica ontológica metafísica imutável” (Tsai, 2024, p. 149).  O lugar da vacuidade não é uma ausência (no sentido de falta) a ser preenchida por uma substância; é a condição relacional para o surgimento do novo conteúdo. Além disso, a retomada de questões adiadas manifesta o princípio da oposição complementar (yin-yang): “a transformação ocorre na complementariedade intrínseca à interdependência ou coexistência” (Tsai, 2024, p. 158). O que estava ausente (a questão não tratada) e o que estava presente (a ordem já exposta) são polos complementares que se determinam mutuamente. 4. Quarta passagem: a descoberta da desordem e a introdução dos números como verdade convencional A passagem final é a mais densa: “O que depois que percebi, para que alguém, porventura buscando ler algo nesta obra que o tivesse movido no Evangelho e o estimulado a perguntar, não se ofendesse pelo tédio da ordem exposta (pois aquilo que era ditado em fragmentos como se

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