Introdução ao Canal Plínio Tsai

Um dispositivo hermenêutico para o estudo da religião a partir do Sul Global

 

O objeto desta breve exposição é um canal de divulgação científica no YouTube – denominado, para efeitos de referência, Canal Plínio Tsai. Contudo, não se trata de um repositório de vídeos educativos. Trata-se, antes, de um dispositivo hermenêutico construído sob coordenadas teóricas, as quais pretendo explicitar.

Em primeiro lugar, este canal recusa expressamente qualquer função apologética. Não se propõe como púlpito cristão, nem como templo budista. Sua finalidade é a popularização do conhecimento científico sobre religião – entendido este como produção de enunciados passíveis de análise, comparação e crítica, não como expressão de fé pessoal. 

A singularidade reside no lugar de enunciação. O canal não examina o cristianismo ou o budismo a partir das categorias consagradas pelo pensamento europeu ou norte-americano – categorias frequentemente associadas a uma metafísica substancialista e a um olhar colonial sobre o “Oriente”. Em vez disso, assume como ponto de partida o Sul Global.

 

Por Sul Global não se designa aqui uma região geográfica empírica – Brasil, América Latina, África, partes da Ásia – mas uma perspectiva epistemológica. Pensar a religião a partir do Sul Global implica:

 

(i) uma desconfiança sistemática em relação às verdades impostas pelos centros hegemônicos,

(ii) uma atenção privilegiada aos processos de tradução, às misturas culturais e aos modos locais de crer e filosofar, e

(iii) uma disposição para tratar os textos e as práticas religiosas como objetos historicamente situados, não como essências atemporais.

 

Este compromisso com o Sul Global não é decorativo. Ele orienta a configuração do canal, que se organiza em torno de dois grandes eixos – cristianismo e budismo –, cada qual examinado sob a mesma perspectiva periférica. Assim, encontram-se no canal:

 

  • Filosofia da Religião – entendida como investigação das questões “o que é religião?”, “o que é sagrado?”, “como pensar Deus ou o vazio?” – todas tratadas a partir do Sul Global.

 

  • Filosofia Cristã – a tradição de Agostinho, Tomás de Aquino, Catarina de Siena, Edith Stein, etc., relida com olhos brasileiros, isto é, desde uma historicidade que não coincide com a europeia.

 

  • Filosofia Budista – com ênfase nos conceitos centrais de vacuidade (śūnyatā) e interdependência (pratītyasamutpāda), também interpretados na chave do Sul Global.

 

  • Teologia Cristã e Estudos Budistas – ambos como disciplinas que descrevem, analisam e comparam fenômenos religiosos, sem que nenhuma delas assuma a posição de metalinguagem neutra oculta.

 

  • Tradução e Hermenêutica – técnicas e escolas de interpretação de textos sagrados, apresentadas a partir do lugar periférico da tradução, onde o sentido nunca é transparente.

 

A estas modalidades expositivas acrescenta-se o formato podcast – conversas alongadas, de ritmo lento, que buscam reproduzir o tempo da reflexão hermenêutica.

 

Cabe agora uma delimitação negativa, tão importante quanto a positiva. O canal não defende fé alguma. Não pretende converter ninguém ao cristianismo nem ao budismo. Não é um púlpito, nem um templo virtual. É, na metáfora empregada, uma sala de aula ampliada – ou melhor, uma biblioteca pública em formato digital. O que se realiza ali é diálogo inter-religioso, entendido como troca informada e respeitosa entre sistemas de pensamento que frequentemente se consideram incomunicáveis. E esse diálogo acontece enraizado na cultura brasileira – com sues sincretismos, suas festas, suas tensões constitutivas.

A organização das playlists reflete a dualidade anunciada: de um lado, Religião, Filosofia e Teologia Cristã; de outro, Religião, Filosofia e Estudos Budistas. Também temos as artes marciais como extensão da Filosofia e da Religião, o que inclui o corpo no processo religioso. Cada uma dessas séries obedece a uma lógica interna que não é redutível à outra. 

O pensamento cristão, em suas formas canônicas, opera no interior de uma metafísica – afirma uma realidade última (Deus), substâncias fixas, uma alma imortal. O pensamento budista clássico, ao contrário, inscreve-se numa anti-metafísica sistemática – nega qualquer realidade permanente, postula o fluxo universal, a relação como fundamento, a vacuidade como natureza última dos fenômenos.

À primeira vista, teríamos aí uma antinomia insuperável – dois registros lógicos e ontológicos que se excluiriam mutuamente. No entanto – e este é o ponto central da proposta – o canal demonstrará a possibilidade de um diálogo não redutor entre esses dois universos. A chave para esse diálogo está em certos instrumentos conceituais fornecidos pela filosofia do pensamento budista chinês: especialmente o princípio da oposição complementar (Yin-Yang), tal como elaborado pela tradição chinesa e incorporado à hermenêutica da escola chinesa Huáyán. Não se trata de fundir metafísica e anti-metafísica numa síntese superior – o que seria um gesto ainda metafísico. Trata-se de permitir que operem em tensão produtiva, como o dia e a noite – opostos, mas coexistentes; mutuamente determinantes, mas sem perda de sua diferença específica.

 

Desse modo, o Canal Plínio Tsai não é um repositório de conteúdos voltados para o público leigo. Ele constitui, potencialmente, como um objeto de conteúdos que podem se fornecer um objeto de análise para os pesquisadores– sobretudo nas áreas de Filosofia, Teologia, Ciências da Religião e Estudos da Tradução. Ele coloca em ato uma filosofia da religião situada, despojada de pretensões universais abstratas, e articula um modo de comparar tradições que não se baseia na identidade nem na diferença absoluta, mas na relacionalidade complementar.

Por fim, o canal dirige-se a todos aqueles – jovens estudantes, pesquisadores experientes, curiosos sérios – que buscam interrogar o fenômeno religioso sem proselitismo, aprender filosofia sem ter que escolher um lado, e compreender o budismo e o cristianismo como construções humanas, históricas, complexas – tendo o Brasil e o Sul Global como ponto de partida, não como apêndice.

 

É neste sentido que o convite final – “Sejam bem-vindos. Vamos pensar juntos” – não é uma saudação solta, mas a expressão de uma comunidade de interpretação em formação.

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