ME25 – Aulas 7 e 8 – A Igreja, a Sociedade e os Conflitos Teológicos frente a Unidade Cristã
Aulas 7 e 8 – A Igreja, a Sociedade e os Conflitos Teológicos frente a Unidade Cristã Autor: Plinio Marcos Tsai Posicionamentos das igrejas em questões sociais e políticas A evangelização entendida na perspectiva da teologia da libertação implica uma compreensão transformadora da missão da Igreja no mundo. Nessa perspectiva, o evangelho não é um discurso neutro ou meramente espiritual, mas boa notícia dirigida prioritariamente aos pobres. O Documento de Medellín (1968) foi o primeiro a sistematizar essa compreensão em nível continental, reconhecendo que a pobreza na América Latina não era mera fatalidade, mas resultado de estruturas injustas. Com isso, propôs uma Igreja solidária, que denuncie os mecanismos de opressão e anuncie um Reino de Deus justo, sinal de liberdade e paz. A partir do Concílio Vaticano II, e especialmente com Medellín e Puebla, a Igreja da América Latina passou a se reconhecer como “Igreja dos pobres”, inspirando-se na opção preferencial por eles. A evangelização se torna então uma prática libertadora que busca transformar tanto o coração humano quanto as estruturas sociais. João Paulo II, em documentos como Redemptoris Missio, reafirma que não há evangelização verdadeira sem atenção à dignidade humana e à promoção dos direitos fundamentais. Como enfatiza a Evangelii Nuntiandi, “a Igreja não existe senão para evangelizar”, e evangelizar é transformar a realidade segundo o projeto de Deus. O Dicionário Teológico: O Deus Cristão, ao definir evangelização como a comunicação da boa notícia aos pobres, insere a missão evangelizadora dentro de uma tensão concreta: a evangelização não é só proclamar palavras, mas realizar atos que atestem a veracidade dessa proclamação. Isso supõe uma Igreja que escute o clamor dos povos marginalizados e promova a justiça social como expressão de fé. Vejamos: “A boa notícia que Jesus anuncia como evangelizador, equivale à presença do Reino de Deus, aqui e agora, para todos, preferencialmente para os pobres, excluídos de toda salvação é boa notícia. A evangelização começa por anunciar o que Jesus anunciou: o reino de Deus aos pobres e marginalizados, e intenta fazer como Jesus fez. Assim, chega-se a considerar Jesus como boa notícia definitiva com sua ressurreição. Jesus Cristo é a boa notícia que a evangelização anuncia. Com outras palavras, a evangelização, como processo de salvação libertadora ou de libertação salvífica, é dirigida aos pobres com o critério das exigências do Reino de Deus. Por essa razão, tem destinatários privilegiados, que são os pobres, que Deus ama e defende porque quer que se implante a justiça de seu Reino” (PIKAZA; SILANES, 1988). A tensão entre a opção profética e a permanência em estruturas tradicionais conservadoras gerou conflitos teológicos dentro das próprias igrejas. De um lado, setores mais conservadores insistem numa evangelização centrada em doutrinas e sacramentos, distanciando-se de análises sociopolíticas. Do outro, teólogos e pastores comprometidos com a realidade dos pobres denunciam a desigualdade como incompatível com o evangelho. Puebla retoma Medellín com mais cautela, mas reconhece que “a boa notícia de Jesus é proclamada aos pobres” e que eles são sujeitos da evangelização. Novamente: “A evangelização exige descobrir, no mundo atual, as dores e as esperanças humanas. Não basta repetir fórmulas feitas. Frequentemente, abusamos de uma espécie de inflação de vocabulário missionário. Necessitamos mudar muitas linguagens, formas, meios de penetração e de compromissos. […] A evangelização libertadora assume a ação política, mas não se esgota nela, transcendê-a. A mensagem de Jesus deve ter, na sociedade, uma geração original. Por um lado, é preciso estar consciente e responsável da própria vida de Jesus. A fé não é propriamente algo que o cristão tem para se relacionar com Deus, mas é relação que Deus tem para que o cristão viva” (PIKAZA; SILANES, 1988, p. 120-121). Assim, a Igreja, em sua pluralidade, posiciona-se de forma tensa, mas cada vez mais sensível à necessidade de se comprometer com a transformação das realidades sociais. A evangelização é, pois, um ato político e teológico. Tensões entre teologias conservadoras e progressistas. As tensões entre teologias conservadoras e progressistas se manifestam de maneira particularmente nítida no campo da evangelização e da missão da Igreja no mundo contemporâneo. A teologia conservadora, em muitos contextos, busca preservar a tradição doutrinal e os aspectos espirituais da fé, frequentemente desvinculando a ação evangelizadora de qualquer implicação sociopolítica. Para essa perspectiva, o Reino de Deus é entendido como uma realidade transcendente, voltada para a salvação individual e futura, com pouca ou nenhuma inserção nas realidades históricas concretas. Em contraste, a teologia progressista, especialmente articulada (nas décadas de 70 até 80) na América Latina por meio da Teologia da Libertação, entende a evangelização como um ato transformador e comprometido com a justiça social. Para essa abordagem, a missão da Igreja não pode ser separada das estruturas históricas em que os pobres e marginalizados vivem. Evangelizar é, também, denunciar as injustiças, anunciar o Reino de Deus como presença real no mundo e promover a libertação integral da pessoa humana. Assim temos o seguinte: A evangelização foi, frequentemente, reduzida de modo espiritualista, ao entender o Reino de Deus de forma gnóstica, contraposto ao reino deste mundo, passageiro e desprezável, do qual deve fugir. Com este paradoxo: despreza-se o mundo, inclusive como criação, ao mesmo tempo que se define o sistema de dominação. Este tipo de evangelização desloca o compromisso político dos cristãos, já que separa fé e vida pública. Por outro lado, também cabe uma redução política da evangelização, quando se entende o Reino de Deus como mera libertação política, inclusive de forma partidária. Na realidade, a evangelização libertadora assume a ação política, mas não se esgota nela, transcendê-a. […] A evangelização libertadora deve considerar a dor, dentro do contexto do evangelho. O clamor pelo justo clamor dos pobres e da iniquidade das estruturas injustas da sociedade – os pobres – os marginalizados – feridos e despojados em seus direitos fundamentais. A partir da presença de Deus neles próprios, convertendo-se em sujeitos fundamentais de evangelização e libertação, como resposta eclesial à opção libertadora de Deus nos pobres, é aceita positivamente por muitos setores dos países do Terceiro Mundo. À medida que responda
ME25 – Aulas 5 e 6 – O Movimento Pentecostal e o Ecumenismo
Aulas 5 e 6 – O Movimento Pentecostal e o Ecumenismo Autor: Plinio Marcos Tsai Vamos estudar o tema do ecumenismo e do pentecostalismo na perspectiva da missiologia interpretada no viés da hermenêutica cristã com fundamento na teologia patrística de Agostinho de Hipona. Iniciamos revisando alguns pontos fundamentais da nossa perspectiva interpretativa, a missiologia (que também pode ser chamada de missionologia): No Evangelho, Jesus se apresenta como aquele que foi enviado pelo Espírito Santo (Lc 4,18) para proclamar a boa-nova (Mc 1,14-15) e oferecer sua vida em resgate por muitos (Mc 10,45). Durante sua vida pública, Ele enviou seus discípulos para pregarem o Reino de Deus (Lc 9,2). Após a ressurreição, ordenou-lhes que fizessem discípulos entre todos os povos (Mt 28,19), pregassem em seu nome a todas as gentes (Lc 24,47) e proclamassem o Evangelho a toda criatura (Mc 16,15). (PEDROSA; NAVARRO; et al. 1999) No contexto da missiologia, o texto acima nos recorda da missão de “entre todos os povos… a todas as gentes”, um tipo de missão que traz as noções de imitação de Cristo em sua atividade salvadora. A atividade salvadora na perspectiva da (1) missão para todos os povos, um dos três elementos que constituem o estudo da missiologia, sendo os dois elementos restantes, elementos que nos são contemporâneos, que são (2) a missão para os próprios cristãos (…pregassem o Reino de Deus), a missão pastoral; e (3) a missão para as estruturas sociais secularizadas (… durante a sua vida pública… proclamassem a toda a criatura), a missão sociopolítica, como a cultura, a educação, a legislação, os poderes políticos como o executivo e o judiciário, enfim, as instituições da administração publica, e assim por diante, que caracterizam, novamente, a missão política (pública). Na perspectiva da teologia como disciplina vital da vocação do teólogo, temos a descoberta do “chamado” fundamentado na graça de Cristo. Esta graça, na perspectiva da hermenêutica agostiniana se dá, na pesquisa teológica, pela hermenêutica dos textos sagrados, com foco sempre na luz dos Evangelhos. No entanto, a graça nos leva para o método hermenêutico (de interpretação) que se fundamenta em dois fluxos (eixos): (a) doutrina sobre as coisas (a realidade), e (b) a doutrina sobre os sinais (a pessoa de Jesus nos textos, novamente, com centro nos Evangelhos). Em nossa disciplina, a missiologia, portanto, temos que estar atentos aos “sinais dos tempos”, que se apresentam nos acontecimentos factuais, em nossa realidade, e manifestam o seu significado teológico por meio da nossa interpretação dos acontecimentos sob a “a luz do Evangelho” (em nossa leitura dos Evangelhos, os sinais linguísticos que foram divinamente dispostos): A missão de Jesus tem sua origem no Pai e se realiza sob a ação do Espírito Santo. Ele comunica essa mesma missão aos seus apóstolos ao dizer: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio” (Jo 20,21). O objetivo fundamental desse envio é a evangelização, ou seja, anunciar a boa-nova. Tanto a missão de Jesus quanto a evangelização da Igreja possuem um caráter universalista, abrangendo todos os povos (Mt 28,19) e toda a criação (Mc 16,15). (PEDROSA; NAVARRO; et al. 1999) A graça é a ação do Espírito Santo, o anúncio do amor incondicional de Deus, capaz de transformar todas as coisas, todas as estruturas sociais, todos os elementos da política, das instituições sociais, e assim por diante, e isso se dá na pessoa de Cristo como centro e luz de todo o giro de significado que constrói e transforma a nossa realidade. Mas é preciso interpretar a Cristo nos Evangelhos, daí a validade de todas as formas de ciências de pesquisa que são produzidas pelos seres humanos, desde que dentro dos limites da responsabilidade de guardiões da natureza que nos foi dada por Deus. Para isso é preciso que nos coloquemos para fora da visão egoísta que considera o ser humano o mestre e senhor da natureza. Só Deus é mestre e senhor. Nós somos os administradores “dos talentos”. Quando estudamos o primeiro elemento da missiologia, a (1) missão para todos os povos, devemos considerar que em todos os lugares e em todos os tempos, na perspectiva da teologia, Deus se comunicou de alguma maneira por meio da racionalidade religiosa que busca um sentido para a existência humana e para a realidade do mundo. Embora de maneira imperfeita, sob o fluxo do pecado original e suas consequências, e sob o fluxo do domínio diabólico sobre o mundo, os diversos povos e culturas, não foram abandonados pela misericórdia divina. Na perspectiva da hermenêutica agostiniana só Deus é o objeto, a coisa, a realidade que nos é disposta para a fruição. O que significa fruição? Significa a felicidade e beleza em sua forma mais perfeita, acabada. O termo perfeito vem do latim “per factum”, o que significa uma coisa que não está mais submetida a nenhum tipo de desenvolvimento, ela é acabada e fim em si mesma. Só Deus, só a Trindade é perfeita, por isso só ela é nosso objeto de fruição, só ela é a realidade que aquieta o coração humano, só ela leva para o sentido pleno da vida humana. Por outro lado, há também as coisas a serem utilizadas, e estas coisas são utilizadas para nos guiarem para a fruição perfeita, o Deus que é Trindade. Então, usamos das coisas que nos são apresentadas pelos nossos sentidos, pela nossa experiência de estar no mundo, tendo em vista a missão da proclamação de Cristo e do Reino de Deus, que são a manifestação experiencial, fenomenológica, da vida divina para o mundo, do bem perfeito para a felicidade de todos os povos. É nesse sentido que a hermenêutica agostiniana nos diz para interpretarmos a realidade em suas mais diversas dimensões. Todas as coisas são úteis enquanto apontam para o fim último, que é Deus em Cristo nos valores dos Evangelhos. Sendo assim, Deus continuou a se comunicar com os seres humanos, uma vez que Deus é o fim último, o único bem a ser realmente fruído por todos os seres criados, ainda que os seres humanos estivessem
ME25 – Aulas 5 e 6 – Missiologia: Conceito, Aplicação Contemporânea e Tensões
Aulas 3 e 4 – Missiologia: Conceito, Aplicação Contemporânea e Tensões Autor: Plinio Marcos Tsai O conceito de missão cristã e sua aplicação contemporânea A missão é um elemento essencial da Igreja, vejamos uma breve revisão dos elementos fundamentais da Aula 1, e que tem como elemento caracterizador o ser sinal e instrumento da salvação cristocêntrica para toda a humanidade. Esse conceito fundamenta-se na tradição bíblica e teológica, sendo no Antigo/Primeiro Testamento uma noção lógica de envio que está presente na vocação profética (p. ex.: Ex 3,10; Jr 1,7) e na esperança de conversão das nações ao Deus único (p. ex.: Is 2,1ss; 19,21-25). No Segundo/Novo Testamento, a noção lógica é de que Jesus é o próprio Deus que vem ao mundo, adentrando o espaço e o tempo da sua criação, para comunicar a verdade sobre Ele mesmo. Jesus, com as duas naturezas, humana e divina, faz discípulos e funda uma comunidade específica para a vivência dos seus ensinamentos religiosos, de modo que a mensagem de Deus é sempre realizada em âmbito coletivo (no sentido de não ser possível a sua divulgação e vivência de forma individualista); e seus discípulos também são enviados a propagar a mensagem de que Deus se fez ser humano no fluxo histórico, o tempo e espaço humanos, de acordo com o anúncio dos ensinamentos (interpretados sobretudo no método analógico pelo teólogo Agostinho de Hipona) e que chamamos de Evangelho (Mt 28,19; Mc 3,25s). Na contemporaneidade, entrando agora no assunto da Aula 2, a missão da Igreja está inserida em um contexto global de pluralismo religioso, crise social e desafios culturais. Por exemplo, o Concílio Vaticano II, por meio do decreto Ad Gentes, reafirmou a necessidade da evangelização, destacando a importância do diálogo inter-religioso e da inculturação da mensagem cristã (Église Catholique, 1966). Paralelamente, a missão se expande para os chamados “seis continentes”, reconhecendo que Europa e América também são territórios missionários, devido ao processo de secularização. A teologia da missão, ao longo dos séculos, passou por diversas transformações para atender às necessidades emergentes da sociedade e da própria Igreja. A abordagem inicial era estritamente evangelizadora, com foco na conversão de povos que não conheciam o cristianismo. Essa perspectiva mudou significativamente com o avanço dos estudos missiológicos, que passaram a incluir aspectos sociais, políticos e culturais no processo de evangelização. Atualmente, o conceito de missão vai além da simples conversão, incorporando a ideia de serviço ao próximo, promoção da Justiça Social e construção de um mundo que tem como modelos Direitos Humanos e a crítica ao humanismo antropocêntrico desenvolvido eurocentricamente (resultou em guerras mundiais, com o surgimento, p. ex., do nazismo/fascismo e socialismo revolucionário). Por outro lado, a análise crítica sobre os sistemas políticos e econômicos se faz constante mediante a perspectiva do anúncio de Cristo, com centro nos valores e ensinamentos do Evangelho (retorno as fontes originárias do cristianismo). Além disso, o contexto contemporâneo impõe desafios adicionais à missão cristã. A secularização crescente das sociedades no mundo (materialismo e cientificismo), a globalização (neoliberalismo) e o aumento do pluralismo religioso (eternalismo e niilismo) exigem que a Igreja repense sua abordagem missionária. A missão precisa ser adaptada para dialogar com uma sociedade pós-moderna, que muitas vezes rejeita dogmatismos e coletivismo (pilares de sustentação da proposta de vivência comunitária), e busca por experiências espirituais mais personalizadas (individualismo e consumismo). Nesse sentido, a Igreja tem procurado desenvolver novas estratégias missionárias que valorizem a autenticidade do testemunho cristão e o engajamento nas questões sociais. O papel da Igreja no Brasil e na América Latina Historicamente, a missão cristã na América Latina esteve profundamente ligada às expedições coloniais, em especial pela atuação de ordens religiosas como os jesuítas, que criaram as “reduções” a partir de 1610, buscando proteger os povos indígenas e adaptar a mensagem cristã às culturas locais. Esse movimento já demonstrava uma preocupação com a inculturação da fé (figurismo e acomodação), conceito que se fortaleceu ao longo dos séculos (informações adicionais no final do texto da aula). A evangelização na América Latina envolveu tanto a imposição da fé cristã pelos colonizadores quanto processos de resistência por parte das populações indígenas, culminando em uma adaptação religiosa (umbanda, candomblé, formas de xamanismo com matriz cristã etc.). A imposição da fé cristã muitas vezes ocorreu de forma violenta, resultando na destruição de culturas e tradições locais. Contudo surgiram iniciativas que procuravam respeitar e dialogar com as realidades culturais dos povos originários. A ação missionária na América Latina esteve permeada pela tensão entre imposição, resistência e adaptação, algo que ainda hoje influencia a maneira como a Igreja atua no continente. No século XX, a Teologia da Libertação destacou a dimensão social da evangelização, enfatizando a opção preferencial pelos pobres e a necessidade de transformações estruturais. O Documento de Puebla (1979) consolidou essa abordagem, entendendo a Igreja como defensora da dignidade humana. No Brasil, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) tem um papel central na formulação de diretrizes pastorais voltadas para a evangelização e a promoção da Justiça Cocial (Lienhard, 1998). Agora, em relação ao nosso país, a missão da Igreja no Brasil tem sido influenciada pelo crescimento das denominações evangélicas, que trouxeram novas abordagens missionárias, muitas delas baseadas no envolvimento direto com as comunidades e na utilização de meios de comunicação de massa para a evangelização. Podemos destacar, neste sentido, o movimento pentecostal que tem desempenhado um papel significativo na redefinição do cenário religioso brasileiro, enfatizando experiências espirituais diretas, curas e dons carismáticos como parte essencial da missão cristã. Atualmente, observa-se um crescimento das Igrejas evangélicas na América Latina, no Brasil com uma atuação política com centralização no Legislativo, trazendo novas perspectivas missionárias. Enquanto algumas denominações enfatizam a evangelização direta, outras valorizam a assistência social como forma de testemunho cristão (Mehl, 1964). Essa diversidade de abordagens reflete a complexidade do campo missionário na América Latina, onde diferentes tradições cristãs coexistem e, em alguns casos, entram em competição direta por fiéis. Texto complementar A Expansão Jesuíta: Comparando os Métodos Missionários na Ásia e na América Latina A Companhia de Jesus, fundada
ME25 – Aulas 1 e 2 – Apostila Missiologia Ecumenismo e Cristianismo Contemporâneo
Aulas 1 e 2 – Apostila Missiologia Ecumenismo e Cristianismo Contemporâneo Missiologia, Ecumenismo e Cristianismo Contemporâneo Autor: Plínio Marcos Tsai Introdução A presente matéria do curso de Graduação em Teologia se dá em três diferentes registros do pensamento da tradição cristã que podem ser chamadas de a lógica da missão ou missiologia; a lógica do diálogo entre as diferentes escolas do cristianismo com as religiões do mundo, o ecumenismo no sentido restritivo e no sentido universal; e as modalidades do cristianismo do mundo de hoje, da contemporaneidade. Na primeira sessão, começamos com a missiologia, e nosso fio condutor será a teologia de Agostinho de Hipona. Veremos através da sua obra, A Doutrina Cristã, como fazer sentido para o estudo de uma das características essências do cristianismo: a missão. O plano de exposição se dá no seu aspecto hermenêutico bíblico, no primeiro (antigo) e do segundo (novo) testamento, até chegar na estruturação feita por Agostinho na nossa obra de referência. Veremos também com a experiência de Pentecostes prepara a tradição cristã para o seu aspecto missionário e ecumênico. Na segunda sessão, a partir de Agostinho iremos verificar as diversas perspectivas da missão e como elas necessariamente nos levam para o inevitável diálogo com as diversas culturas e questões sociais que dão origem as diversas manifestações teológicas que se constituem nas escolas cristãs, a primeira linha do ecumenismo. Depois, veremos como o aspecto da missão leva para o diálogo com as diversas religiões não cristãs do mundo, a segunda linha do ecumenismo. Na terceira sessão, veremos a situação da contemporaneidade brasileira, como objeto da nossa análise de modo a desenvolvermos uma visão panorâmica da missão, do ecumenismo e do cristianismo contemporâneo na cultura e sociedade de nossa identidade no mundo e na história. O foco é nossa situação mais próxima, dentro do séc. XX e XXI, da realidade social religiosa brasileira. O texto da apostila não apresenta a divisão da matéria em oito aulas, mas é rapidamente perceptível a estrutura progressiva da exposição da matéria. Esperamos que este percurso seja de grande ajuda para as futuras pesquisas dos nossos futuros teólogos e teólogas. E que seja de alguma ajuda também para depois da aquisição do bacharelado. Iniciemos o nosso percurso com a graça de Deus, em Cristo. Primeira sessão. A teologia de Agostinho de Hipona como fio condutor: fundamentos bíblicos da missão e ecumenismo. Nosso ponto de partida começa no modo de pensar do teólogo Agostinho de Hipona. Aurelius Augustinus, mais conhecido como o bispo Agostinho de Hipona, que nasceu em Tagaste (atual Argélia) no ano de 354 d.C. Filho de Patrício e Mônica, uma cristã, cresceu em um ambiente de contrastes religiosos. Estudou retórica em Cartago, período marcado por inquietações filosóficas. Em 386, influenciado pelo bispo Ambrósio, converteu-se ao cristianismo e foi batizado no ano seguinte. Em 396, tornou-se bispo de Hipona, e escreveu diversas obras teológicas. Faleceu em 430, durante o cerco dos vândalos a Hipona. A teologia de Agostinho pode ser dividida em três fases. A primeira é a fase maniqueísta (até 384), marcada por sua adesão ao maniqueísmo, na busca da verdade, no dualismo entre bem e mal. Não há grandes obras dessa fase, mas referências aparecem em Confissões. A segunda é a fase do livre-arbítrio (386–411), influenciada pelo neoplatonismo e pelo cristianismo, onde defende a liberdade humana na obra O Livre Arbítrio (De libero arbítrio). A última é a fase da predestinação (412–430), marcada pelo combate ao pelagianismo, enfatizando a graça divina sobre a vontade humana, como exposto em De praedestinatione sanctorum e De gratia et libero arbitrio. A terceira fase é a mais importante para a rede da teologia do protestantismo histórico em diante. Na terceira fase, Agostinho aprofundou sua doutrina da graça e predestinação, principalmente em resposta ao pelagianismo, que afirmava que o homem poderia alcançar a salvação por mérito próprio. Agostinho passou a enfatizar que a graça de Deus é absolutamente necessária para a salvação e que alguns são predestinados à redenção. Suas principais obras dessa fase incluem De praedestinatione sanctorum e De dono perseverantiae. Ele também revisou escritos anteriores na obra Retractationes, ajustando conceitos sobre o livre-arbítrio. Esse pensamento influenciou profundamente a teologia medieval e, séculos depois, foi retomado por Lutero e Calvino. Teologia de Agostinho e as conexões com o protestantismo histórico: metodismo e o calvinismo Em relação a teologia metodista há uma relação teológica entre Agostinho e John Wesley (1703–1791) e, antes, com Jacobus Arminius (1560–1609), especialmente no debate sobre graça, livre-arbítrio e predestinação. A teologia metodista, desenvolvida por Wesley, alinha-se mais com a segunda fase de Agostinho, quando ele enfatiza o livre-arbítrio e a cooperação humana com a graça divina (De libero arbitrio). Arminius, teólogo reformado holandês, rejeitou a predestinação calvinista, defendendo que Deus concede graça preveniente a todos, permitindo a resposta humana à salvação – um conceito central no metodismo wesleyano. Wesley seguiu essa tradição arminiana, enfatizando que a graça de Deus não anula a liberdade humana, mas capacita a pessoa a escolher seguir a Cristo, e a descoberta de Deus como Pai misericordioso. Assim, enquanto o último Agostinho influenciou o calvinismo, a fase intermediária inspirou o arminianismo e o metodismo. Wesley também incorporou a ideia de santificação progressiva, algo que ressoa com a visão de Agostinho sobre crescimento espiritual na graça. João Calvino (1509–1564) foi profundamente influenciado por Agostinho, especialmente em sua última fase, na qual o bispo de Hipona enfatiza a predestinação e a soberania da graça divina (De praedestinatione sanctorum). Para Calvino, Agostinho foi o maior teólogo dos primeiros séculos e sua doutrina sobre a depravação total da humanidade e a necessidade absoluta da graça fundamentou o pensamento calvinista. A ideia de que a salvação não depende do mérito humano, mas exclusivamente da escolha divina, se reflete na doutrina da eleição incondicional (do calvinismo). Enquanto o “segundo” Agostinho defendia o livre-arbítrio (De libero arbitrio), Calvino rejeitou essa visão, seguindo de perto o “terceiro” Agostinho, aquele que defendia a predestinação como fundamento real, sendo o livre-arbítrio algo como uma ilusão derivada das abstrações dos sentidos. Assim, a